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Home Archive for maio 2016

Ou: vamos falar de assédio persistente.

Muitos dos que acompanham o blog sabem sobre o tema do meu tcc, porque eu tenho muito orgulho desse filho e falo dele pra todo mundo. Para os que não sabem, no último sábado, pela manhã, eu estava descrevendo os resultados da pesquisa que fiz sobre stalking* (em português a tradução mais próxima seria assédio persistente) e, considerando o tamanho da minha amostra, o fato de ser uma universidade particular, podemos dizer que fiquei realmente assustada. E comentei pelo facebook o quanto nós precisamos falar sobre assédio persistente.

No fim do dia, a internet não falava de outra coisa que não o que ocorreu com Ana Hickmann.



É uma pena que, dada a atual situação política do país, um escândalo explodiu na segunda-feira (23/05) e hoje o caso que poderia ter tido uma repercussão extremamente positiva no que diz respeito ao debate sobre o assunto já não está mais circulando por aí. As pessoas, honestamente, já passaram para a próxima notícia. Porém, aqui vai a novidade: stalking não é “privilégio” de gente famosa. Acontece diariamente, com mulheres (e homens) anônimas, em todos os lugares, de todas as classes sociais.

Mas, o que é stalking? A pergunta é excelente, já a resposta é extremamente complicada. Os países nos quais o assédio persistente é tipificado no Código Penal, comumente o identificam por um padrão intencional de comportamentos indesejados que resultam na experiência de medo do alvo, ou comportamentos que uma pessoa “razoável” observaria como ameaçadores ou temerosos (Nyholm, 2010). Acredito que não haja dificuldade alguma em perceber onde está o problema de tal definição: o stalking é o único crime que exige que a vítima demonstre uma determinada resposta para que seja considerado crime. Quando uma mulher sofre violência doméstica, ninguém questiona se ela sentiu medo com o ocorrido para que seja iniciado um processo. Agora, estudos apontam que 1/4 das mulheres que passaram por uma experiência de assédio persistente não demonstraram medo, não se sentiram ameaçadas ou temerosas. Seria justo que a experiência dessas mulheres fosse desclassificada e que o sofrimento e o incômodo causados na vida das mesmas fossem considerados “menos importantes” por não terem respondido à situação da forma como foi pré-determinada que devessem responder?

As discussões em torno do tema são infinitas: qual seria a linha tênue entre o que é permitido, o que é “aceitável” e o que é invasivo? Nossa sociedade, constantemente, incentiva o assédio persistente. Os comportamentos excessivos são vistos como românticos, como atitudes de carinho e afeto. Podemos pensar em infinitas frases como “ele só está te ligando tanto porque ele gosta de você”, “ele foi atrás de você naquela festa e naquele café porque ele queria te ver!”, dentre muitas e muitas outras.

O caso de Ana Hickmann foi um caso de assédio persistente – e foi o caso de uma celebridade. O interesse pelo tema, academicamente e legalmente falando, surgiu devido aos casos frequentes de stalking a pessoas famosas; até o momento em que se percebeu que não ocorria somente com os que estavam na mídia. Para quem não acompanhou as notícias, em resumo, o que ocorreu, foi que um homem postava milhares de declarações através do instagram, utilizando de linguagem chula e expondo a apresentadora de forma perturbadora. No último sábado, ele invadiu o hotel no qual ela estava hospedada portando uma arma — e a história acabou com uma morte (do agressor) e um ferido (a cunhada de Ana Hickmann).

São infinitas as coisas que poderíamos tirar para discussão a partir desse caso, mas vamos falar sobre o que considero como sendo os pontos principais:

Em primeiro lugar, a mídia não sabe retratar um caso de violência contra a mulher. Isso é fato e não somente no que diz respeito ao assédio persistente. Se temos uma mídia que não sabe como falar a respeito de um caso de estupro, que acontece todos os dias, várias vezes ao dia de acordo com as estatísticas, quem dirá a respeito de um tema que não se estuda e não se fala sobre em nosso país. Os sites de jornais e revistas se referiram ao agressor como “fã”, a suas mensagens como “mensagens de amor e carinho”. Querida mídia: não é amor, não é carinho, não é fã. É stalking. E as consequências podem ser essas que presenciamos recentemente, dentre tantas outras.



Além disso, precisamos falar sobre a importância de darmos nomes às coisas. É importante chamarmos os casos de stalking exatamente daquilo que são: casos de stalking. Quando não damos “nomes aos bois”, nós não sabemos que aquilo acontece, nós não olhamos as estatísticas e consequentemente nada é feito a respeito. O caso da Ana Hickmann sendo apresentado como “fã apaixonado” não é relacionado ao caso da mulher que ninguém conhece e que foi noticiado em uma nota de rodapé lá no site do G1 como “mulher é morta por ex-parceiro que não aceitava o fim do relacionamento”, e muito menos é relacionado a tantos outros casos que ocorrem diariamente e que não possuem um “fim” digno de atenção midiática, mas que causa impactos sociais, psicológicos, financeiros e na rotina de quem é vítima.

O principal propósito desse texto é dar uma guinada na discussão. Nós precisamos falar sobre assédio persistente porque ele é silencioso, porque é uma violência coberta, aceita, incentivada. Nós precisamos falar sobre isso, contar nossas histórias, ouvir as histórias dos outros e discutir o que pode ser feito a respeito (e aqui não entro no mérito “tipificar o crime no código penal” porque eu sou completamente descrente quanto ao mesmo).

O assédio persistente faz mal sozinho, mas pode ser, também, o caminho para outras infinitas formas de violência.

E já passou da hora de darmos a devida atenção ao assunto.

* stalking: termo em inglês que, em tradução literal para o português, significa "perseguição"; porém, nos meios acadêmicos, discute-se que o termo mais adequado para tradução seria "assédio persistente".


SAIBA MAIS - algumas estatísticas:

  • Em um ano, 7.5 milhões de pessoas sofrem stalking nos Estados Unidos;
  • 1 a cada 4 mulheres e 1 a cada 13 homens irão ser vítimas de stalking em algum momento de sua vida; 
  • 21% das experiências ocorrem durante o relacionamento íntimo, 38% durante e depois o término do relacionamento e 43% depois que o relacionamento terminou;
  • Impactos: isolamento, hipervigilância, transtorno pós-traumático, pesadelos, pensamentos suicidas, culpa, auto-medicação com drogas ou álcool, raiva, vergonha, depressão, confusão, dentre outros;

Todas as informações a cima são referentes à estatísticas dos Estados Unidos. Como dito no texto, o Brasil está muito atrás em pesquisas e nós não estamos tratando o assunto com a seriedade que merece.

Referências: 

  1. Estatísticas (deixo o link do pdf, pois se trata de um guia de campanha muito interessante, porém inteiro em inglês): ttp://stalkingawarenessmonth.dreamhosters.com/sites/default/files/NSAM%202016%20Social%20Media%20Posts%20Final.pdf
  2. Quanto a definição legal utilizada no texto: Nyholm, H. H. (2010) Stalking. Em Brown, J. & Campbell, E. A. The Cambridge Handbook of Forensic Psychology. (pp. 562-570). New York: Cambridge University Press.
Domingo passado, fui ao cinema ver "Nise — O Coração da Loucura" (dirigido por Roberto Berliner), já ciente de que estava prestes a ver um filme e conhecer um pouco sobre uma mulher que me colocaria para pensar bastante. Baseado na experiência da psiquiatra Nise da Silveira (vivida por Glória Pires de forma excepcional), o filme retrata, basicamente, como o afeto e a atenção são meios muito mais eficazes para tratar dos "excluídos" do que qualquer tipo de violência, seja ela física, simbólica ou verbal. 

Desde que entrei na faculdade de Direito, desenvolvi enorme interesse sobre o tema Direitos Humanos e a cultura da não-violência como resposta ao caos social. No segundo período, estagiando em uma Vara Criminal de Vitória durante o dia e tendo aulas profundas de Sociologia e Filosofia pela noite, eu entendi que havia entrado num ramo que não mais me proporcionaria noites tranquilas de sono ou um humor constantemente alegre. Lidar com Direitos Humanos e cárcere não é fácil: a gente precisa desenvolver um escudo e uma armadura, mas, ao mesmo tempo, cuidando para que o coração permaneça frágil, acessível. Ainda assim, parece um chamado. Militar pela dignidade humana, por mais difícil que seja, nunca será em vão.

Nise da Silveira foi um exemplo disso. Revolucionária na psiquiatria nacional, não acreditava na violência como solução e, lutando num campo majoritariamente composto por homens, encarregada da renegada Terapia Ocupacional de um hospital psiquiátrico, introduz a arte àqueles que ela chama de "clientes" — e não mais "pacientes" — como forma de expressão da mente, por vezes confusa. Nise não acredita na violência, acredita na subjetividade: deixa que seus clientes façam o que quiserem; deixa que suas mentes se manifestem livremente; deixa que os ditos "loucos" convivam com a natureza, com os animais, como seres humanos agora dignos de contato e afeto. Mas, para além disso, a trajetória da Dra. Nise nos faz questionar quem é o louco e o são; quem é o desejável e o indesejável; por quem vale lutar e quem a sociedade prefere isolar — tirar de vista, isentar-se de responsabilidade: pois aquilo que eu não vejo, não me afeta, com aquilo que está fora do meu meio de convivência eu não sou obrigado a lidar.

"A sociedade tende a instalar uma clivagem entre o que considera normal e anormal. Assim estabelece uma clivagem muito profunda entre ela (a sociedade "sadia") e todos aqueles que, como os loucos, os delinquentes e as prostitutas, são desvios, são doenças, que se supõe nada têm a ver com a estrutura social. A sociedade se autodefende, não dos loucos, dos delinquentes e das prostitutas, mas de sua própria loucura, de sua própria delinquência, de sua própria prostituição, e dessa maneira aliena, desconhece e trata como se fossem alheias e não lhe correspondessem" 
(Bleger, 2007).

Em outras palavras, os manicômios e as prisões representam tudo aquilo com o qual não queremos entrar em contato e preferimos manter longe de nós - nos protege, enquanto sociedade, não do perigo causado por aquele que excluímos, mas do que eles representam a nós: a nossa própria loucura, a nossa própria delinquência.


"Nós estamos pretendendo a recuperação de homens considerados farrapos para uma vida socialmente útil e talvez mais rica que a vida anterior que eles levavam".
(Nise da Silveira)

Dia 18 de maio é celebrado como o Dia de Luta Antimanicomial, movimento criado para pôr fim a todos os tipos de encarceramento e hospitalização dos chamados "loucos", entendendo, como a Dra. Nise, que os métodos de verdadeira tortura e isolamento dessas pessoas não são o caminho para o tratamento de nenhum tipo de doença mental. Os hospitais psiquiátricos, por "melhores" que sejam, por mais "humanizados", ainda assim falham em cuidar do ser humano: ao isolar o indivíduo, ao excluí-lo, ao tratar todos os sujeitos com uma mesma rotina, com mesmos métodos de cuidado, utilizando-nos de estigmas, destruímos sua subjetividade, o que é característica fundamental das instituições totais, como descritas por Erving Goffman.

Para além disso, a luta antimanicomial também serve para questionar a própria função da pena de prisão no sistema penal — afinal, se prisão solucionasse o problema da violência, de fato, deveríamos ter índices de criminalidade bem menores, tendo em vista que o Brasil de hoje é o quarto país em que mais se prendem pessoas no mundo todo. É essencial pensar para além da cadeia, do isolamento social, da violência. E Nise da Silveira, ela mesma uma presa política por possuir livros marxistas, em sua história, ensina-nos isso.

Conheçamos Nise da Silveira. Conheçamos figuras femininas importantes de nossa história e saibamos que é possível ser mulher, ter voz, ter atitude e conseguir revolucionar qualquer área do saber que nos propusermos a conhecer. Que a história da Dra. Nise da Silveira nos sirva de ensinamento e inspiração. Mas, acima de tudo, que entendamos que poderíamos ser nós. Poderia ser nossa mãe, nossa irmã. Porque nada nos diferencia em nossa sede revolucionária enquanto mulheres.


(DICA: A cena final do trailer não vai sair da sua cabeça e vai te servir de inspiração pra vida).


PARA SABER MAIS SOBRE O TEMA:  

  • Entrevista escrita com a Dra. Nise da Silveira;
  • Quem foi Nise da Silveira, a mulher que revolucionou o tratamento da loucura no Brasil — matéria do Huffpost Brasil;
  • "A casa dos mortos" — documentário, no youtube, sobre a realidade dos chamados manicômios judiciários, para onde são levados criminosos considerados loucos e que não podem ser levados a prisões comuns;
  • "Bicho de sete cabeças" — filme brasileiro com Rodrigo Santoro como protagonista, narra a história verídica de Neto, internado em um hospital psiquiátrico após seu pai descobrir um cigarro de maconha em seu bolso;
  • "Holocausto Brasileiro: Vida, Genocídio e 60 Mil Mortes no Maior Hospício do Brasil" — livro jornalístico de Daniela Arbex;
  • "Manicômios, prisões e conventos" — livro de Erving Goffman;
  • "Vigiar e Punir" — livro de Michel Foucault;
João é um jovem branco, heterossexual, cis, de classe média; não é bonito nem feio, tem um emprego suportável e um ou dois amigos próximos, com quem joga videogames e sai para beber; João é fã de filmes clássicos, música alternativa e super-heróis de histórias em quadrinhos. A vida de João era estável e monótona, até que ele conheceu Maria. Maria também poderia ser considerada uma jovem “normal” – isto é: branca, cis, heterossexual, de classe média e, é claro, linda – mas não, ela não é como as outras! João certamente não se apaixonou por sua aparência de boneca, mas pelo fato de que, olha só! Ela gosta das mesmas coisas que ele! Quem iria dizer que uma moça tão linda quanto ela fosse ter uns gostos tão estranhos, não é mesmo? E ela adora comer! Mas, é claro, sem engordar um quilo sequer. Como ela consegue?

João pensou que nunca fosse possível as coisas funcionarem entre os dois, porque, apesar de tudo, ele era só um cara qualquer e Maria era uma menina empolgada e aventureira, praticamente seu oposto. Mas, como se fosse mágica, Maria se interessou pela rotina chata de João e por tentar fazer ele ver um lado mais bonito da vida, e assim se apaixonou por ele.

Agora me diga em quantos filmes, livros, séries, etc. você consegue enxergar essa história? Se fizer um pouco de esforço, até em Game of Thrones existe um pouco disso (Jon Snow e Ygritte, alguém?).

"Meu vestido é feito da mais pura seda de Tralalalaleeday!"

E em quantos desses casos o cara no final acaba sendo um babaca, caso a moça não corresponda seus sentimentos? Com certeza maioria desses personagens também são daquele tipo que acredita na mitológica “friendzone” – e não para de reclamar dela.

Quando eu era mais nova eu costumava adorar esse tipo de história – porque eu me identificava com os caras. Sim, mesmo sendo menina. Eu me identificava com eles, torcia por eles, tomava as dores deles, porque eu realmente entendia como era estar naquele lugar. Perdi a conta de quantas personagens femininas incríveis eu odiava quando mais nova por causa dessa identificação. Hoje percebo como esses caras são irritantes e que não existem mulheres desse jeito idealizado que eles tanto correm atrás, e mesmo que elas existissem eles não mereceriam elas. Mas algo dentro de mim ainda sente as dores deles.

Esses dias me peguei me identificando até com – vejam só – o Rei Gelado, de Hora de Aventura. Para quem não sabe, o Rei Gelado é a versão de desenho animado daquele “cara legal”, aquele que não sabe aceitar um não e que reclama da friendzone. E então eu me assustei comigo mesma, com certeza tem algo de errado aí. Será que eu sou tão perseguidora e abusiva assim, ou só me sinto assim por ser uma mulher em uma situação que, normalmente, é vivida por um homem? “Que situação? ” Você pergunta. Então senta que lá vem história.

Eu me apaixonei recentemente, e foi tudo como num filme. Eu vi ele na festa de uma amiga, e me proibi sair de lá antes de conversar com ele. Depois de muita luta, eu acabei puxando assunto, algo totalmente aleatório, como o fato do bolo ser de coco e não de chocolate. Como já era final da festa, conversamos muito pouco, mas ele me adicionou no Facebook – o que fez meu coração acelerar. Por semanas eu ficava encarando aquela bolinha verde na frente do nome dele no chat criando coragem para, de novo, puxar algum assunto. Até que um dia, depois dele já ter curtido e comentado alguns posts meus, eu novamente falei com ele. E nós literalmente conversamos durante dia inteiro. E no dia depois. E no dia depois.

Depois de umas duas semanas já dava pra perceber que ele tinha criado um certo laço comigo, pegou intimidade e confiança rápido e certamente já me considerava amiga. Mas eu, com a visão obliterada por um coração desesperado, ainda não tinha certeza se ele gostava de mim como “algo mais” ou não -  mesmo ele nunca tendo dado sinais de que sim. Até que eu não aguentei mais tanta dúvida e tanta expectativa e resolvi falar para ele o que eu sentia, de maneira mais fria possível pra não assustá-lo. Ele disse que já tinha notado isso havia um tempo, e depois disse a seguinte frase “Eu sei que é clichê, mas o problema não é você, o problema sou eu. Eu já gosto de outra pessoa.” E sabe o que eu falei depois? Eu pedi desculpas. E até ele mesmo achou que não tinha nada a ver eu fazer isso, afinal, eu não posso controlar essas coisas. Eu já tinha avisado que não queria que isso mudasse nossa amizade, então disse que pedi desculpas porque eu notei que talvez eu mesma poderia mudar de atitude com ele, o que deixou ele triste, afinal, ele gosta muito de mim como amiga. E então eu chorei por algumas noites seguidas e logo depois passou – aliás, minutos depois da “declaração” a gente já estava conversando como se nada tivesse acontecido. E continuamos assim por algum tempo, até eu decidir cortar relações, porque não aguentava mais ser a raposa da fábula de Esopo, "A raposa e as uvas". No final, de novo caí no estereotipo do nice guy.

"Eu só quero ser amado!"

É aí que me vêm as dúvidas: e se fosse ao contrário, se tivesse sido ele quem ficou perdidamente apaixonado por mim, procurando em todas as minhas mensagens um sinal nas entrelinhas dizendo que sim, eu gostava dele do mesmo jeito? Ele seria um fofo, um pobre coitado, não é mesmo? Coitadinho, foi iludido por aquela vadia sem sentimentos! Mas pelo menos ele ganhou uma lição de vida, não é?

E eu? Ah, sou apenas mais uma boba iludida. Que idiota, não é mesmo? De pensar que, algum dia, ele fosse gostar de mim. 
Há muito tempo meus amigos me diziam para assistir uma série de TV provavelmente conhecida por todas as pessoas que vivem neste universo, chamada How I Met Your Mother. Demorei, mas finalmente dei uma chance.

De cara, conheci e amei Robin Scherbatsky.

E logo percebi que eu era uma das poucas exceções. Robin não é, nem de longe, a personagem favorita da série – apesar de ser uma das principais da trama. Eu remoí esse texto na minha cabeça durante muito tempo, mas ontem, enquanto lia um comentário aleatório em uma foto da personagem no facebook, eu percebi que nós realmente precisamos falar sobre Robin Scherbatsky.

Pros que nunca assistiram a série (ou para aqueles que vieram de outro planeta e nem ouviram falar da mesma), How I Met Your Mother é uma série de comédia (tecnicamente), com cinco amigos que vivem suas vidas e estão sempre em um bar. Resumidamente, a série acontece conforme o Ted conta para seus filhos como ele conheceu a mãe deles – e com isso também conta como conheceu todos os outros personagens da série e tudo o que eles passaram juntos, ao longo dos anos.

Mas vamos ao que é importante para esse texto: Robin e Ted se conhecem logo no primeiro episódio da primeira temporada. Ela é uma jornalista, apaixonada pela carreira, que mudou do Canadá para New York exatamente com o intuito de conseguir um bom emprego e alavancar a vida profissional. Já Ted é um arquiteto, romântico incurável, com o sonho de encontrar a mulher da sua vida, casar e ter filhos.

Deixando de lado meu nível imenso de identificação com a personagem em muitos aspectos, vamos falar sobre o ódio geral existente pela mesma e o que ele representa. Porque sim, ele representa alguma coisa – e não é pouca coisa, não.

Robin não quer ter filhos e não sonha em casar. Quer uma carreira bacana, quer viajar o mundo, não se mostra dependente de ninguém. Mora sozinha e gosta – muito – disso: do seu espaço, da sua individualidade – e essa questão se mostra relevante até dentro dos seus relacionamentos, nos quais ela sempre tenta continuar sendo um indivíduo, com suas vontades, suas particularidades e não apenas uma metade, ou extensão, da outra pessoa. Mas fica muito claro que as pessoas não estão prontas para lidar com a independência de uma personagem feminina como essa.

(imagem da internet)

Há uma cena em que dois personagens da série – Lily e Marshall – que formam o casal mais dependente que eu já vi em toda a minha vida, estão conversando e Lily diz: “A Robin é... qual é o eufemismo para egoísta?” e o Marshall responde: “independente”, e ela responde: "isso mesmo". Essa cena diz muito sobre o que as pessoas, num geral, esperam de um relacionamento e o que veem como ideal – de comportamento e de relações. Lily e Marshall, como eu disse, são completamente dependentes. Separados, eles não existem e isso é um fato. Mas as pessoas adoram, as pessoas idolatram, as pessoas falam sobre como sendo o modelo que todos deveriam seguir.

Enquanto isso, Robin é egoísta. E o mais importante: Robin não merece o amor do Ted.

Robin tem defeitos, sim (ainda bem!), pisa na bola muitas vezes sim – como todos nós. Mas as críticas relacionadas a ela seguem sempre a mesma linha - e sempre giram em torno do fato de que ela “não merece o Ted”.  Eu amo o casal Ted e Robin. Amo muito, também contrariando todas as opiniões gerais (aparentemente, ser do contra é minha especialidade). Mas eu não vejo ninguém falando sobre como o Ted é carente e o quanto ele não consegue ficar em paz consigo mesmo, sozinho, sem ninguém. Eu não vejo ninguém usando a mesma força que usam para criticar a Robin, criticando o Barney pelos comportamentos extremamente machistas e SIM egoístas que o personagem tem. Até agora eu não vi ninguém indignado com o fato de que, quando a Lily quis fazer um intercâmbio para realizar um sonho, Marshall preferiu terminar o relacionamento – e ela não aproveitou nem um pouco a viagem, assim como ele não saiu de casa por mais de 50 dias.

A realidade é que ninguém está pronto para lidar com uma mulher que sabe o que quer e não pretende mudar de opinião. Ninguém está pronto para lidar com relacionamentos que sejam partes individuais que formam um conjunto e não metades de alguma coisa.


Robin Scherbatsky ser independente incomoda. Assim como as mulheres independentes da vida real incomodam também. Não é à toa que, constantemente, estragam nossas personagens femininas que costumavam serem incríveis, para colocá-las em relacionamentos que, se não fosse um escritor machista e sem noção incapaz de seguir uma linha de personalidade feminina forte, elas jamais teriam se envolvido (vide Alana Bloom em Hannibal, Liz Keen em The Blacklist, etc). A mulher independente, segura de si, só pode ser infeliz: ou por não ter um relacionamento, ou por não ter um filho, ou por conseguir ser feliz sozinha.

O ódio à Robin Scherbatsky possui uma relação imensa com o ódio à liberdade feminina.

E nós precisamos, sim (e muito!), falar sobre isso.
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