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(contém alguns spoilers sobre o livro, o que de forma alguma modifica a experiência da leitura)

"Eu amava Cole, mas, às vezes, amá-lo era como andar de montanha-russa sem conseguir recuperar o fôlego entre curvas e quedas."

Dentre as infinitas passagens de Amor Amargo, escrito por Jennifer Brown, que marquei durante a minha leitura, acredito que essa seja a que melhor representa um relacionamento abusivo - e por isso decidi colocá-la antes de iniciar o texto. O primeiro livro da autora – referente aos que foram lançados no Brasil - foi A Lista Negra, o qual conta a história de um caso de bullying que terminou em massacre. Com sua segunda obra traduzida, essa sobre a qual escrevo, Brown demonstra sua capacidade invejável de tratar assuntos extremamente importantes e relativamente "pesados" de forma impecavelmente clara e muito bem desenvolvida.

(Imagem da internet)
(Imagem da internet)

Há muito tempo alimento um interesse imenso pela dinâmica envolvida em relacionamentos abusivos: por que ela não vai embora? Por que é tão difícil para a mulher se livrar desse tipo de ligação completamente tóxica? Por que muitas mulheres (e homens) amam os homens (e mulheres) que lhes fazem tão mal? (deixo a relação homem-mulher como principal referência porque, em primeiro lugar, o livro trata de um relacionamento heterossexual e, em segundo lugar, sabemos que apesar de relacionamentos abusivos serem possíveis de acontecer entre homens-homens; mulheres-mulheres; homens-mulheres; mulheres-homens, o relacionamento heterossexual e a violência sobre a mulher prevalecem). Honestamente, apesar de todo o meu esforço para compreender tal questão, tenho absoluta certeza de que a dinâmica é ainda mais complexa do que eu, hoje, posso entender. Porém, a leitura desse livro me proporcionou uma experiência incrível: a possibilidade de acompanhar, passo a passo, da construção, do desenvolvimento, desse tipo de relacionamento.

Em termos gerais, Amor Amargo conta a história de Alex, uma garota que está em seu último ano do ensino médio e que perdeu a mãe em um acidente de carro que ocorreu quando a mesma estava indo embora de casa, algo que a menina nunca conseguiu superar. Alex tem dois melhores amigos, Bethany e Zach, até o dia em que conhece Cole, um garoto que recentemente mudou para o seu colégio.

O relacionamento de Alex e Cole começa realmente como um romance adolescente. Se você não sabe sobre o que se trata o livro, provavelmente torcerá e muito pelos dois – mas apenas durante os primeiros capítulos. Cole é um garoto muito romântico, carinhoso e vai, aos poucos, demonstrando o interesse que sente pela protagonista. Para mim, um dos principais pontos positivos do livro – e o que o torna tão incrível - é a forma com que a autora consegue te guiar pelos passos da personagem: como o livro é narrado na primeira pessoa pela própria Alex, você se sente na pele da mesma; você acompanha a história pela sua perspectiva, pela forma com que ela enxerga as atitudes de Cole e o porquê o faz.  Tal proximidade com os pensamentos da protagonista chega a ser perturbadora (e por isso, aqui fica o alerta de gatilho emocional), pois é como se sofrêssemos cada agressão – física e psicológica – juntamente com a personagem.

E a manipulação psicológica... É exatamente sobre ela que eu gostaria de falar. Jennifer Brown é formada em psicologia e, para escrever o livro, realizou uma entrevista com um psicólogo americano clínico e forense, chamado Daniel C. Claiborn (as respostas para as perguntas realizadas pela autora se encontram ao final do livro). Acredito que esses dois fatores tenham tido uma influência maravilhosa na forma com que Brown conseguiu descrever toda a história.

Eu, como leitora, posso dizer que meus sentimentos também se mantiveram em uma grande montanha russa durante absolutamente toda a minha leitura. São muitos os momentos em que você quer dar a mãozinha para Alex, sentar com ela num café e falar “amiga, vamos conversar”; ou os momentos em que você sente um “click” dentro da sua cabeça, ao perceber perfeitamente a forma com que a manipulação aconteceu. Você se pega pensando “por que é que você acha que isso é normal?” e no minuto seguinte os pensamentos de Alex te explicam exatamente a forma com que ela se convence de que as atitudes de Cole são, de certa maneira, completamente aceitáveis.

Um relacionamento abusivo se compõe de diversas variáveis. A violência, como citado, não se reduz à física, mas se expande também à moral, à psicológica. Cole é controlador, manipulador, agressivo, stalker – e Brown apresenta de forma brilhante o quanto muitos comportamentos socialmente aceitáveis e considerados românticos são, na verdade, assustadores e, muitas vezes, preditores de comportamentos ainda mais graves – como por exemplo o fato de que Cole fica sempre no restaurante em que Alex trabalha durante to-do o seu expediente, simplesmente olhando para ela e fiscalizando todos os seus passos. Ele afasta Alex de seus amigos, reduz ainda mais sua autoestima, reforça o sentimento de que não há outro no mundo que poderia entende-la e aceita-la melhor do que ele.

"Eu o amava. Eu o entendia. Nós dois nos entendíamos. E isso era raro. Se desistisse da minha alma gêmea... se a deixasse escorrer pelos dedos... será que algum dia seria amada de novo? Não sabia dizer, e tinha medo de descobrir a resposta."

Por fim, visto que eu poderia continuar escrevendo por mais algumas boas páginas, o livro traz mais duas questões extremamente relevantes das quais eu faço questão de falar a respeito. Primeiramente, a culpa: Alex se culpa, em muitos momentos, pelos comportamentos de Cole - o que serve como motivo para que a mesma se mantenha no relacionamento.

"Cruzei os braços na mesa, deitei a cabeça sobre eles e, pensando nessas e noutras coisas, chorei. Chorei pensando que Cole não era assim. Ele estava estressado. Só podia ser, porque, em condições normais, jamais teria feito isso. Ele estava com problemas familiares.E chorei pensando que talvez a culpada fosse eu. Culpada por deixar Zach fazer cócegas em mim no estacionamento e por não ter contado que ia à sua casa naquela noite. Culpada por não ter explicado que Bethany também estava lá e que estávamos só comendo massa de biscoitos e falando de trailers."

E aqui, abro um parênteses e deixo o meu apelo: a culpa não é sua, a culpa não é da vítima. Nenhuma de suas atitudes justifica qualquer forma de agressão contra sua integridade física e psicológica. Lembre-se disso.

Por fim, Jennifer traz a importância de nós, mulheres, ouvirmos umas às outras. Logo no início do livro conhecemos uma ex namorada de Cole – a qual ele chama de louca – e que, posteriormente, passamos a entender muito bem o porquê. A mensagem é clara, mesmo que não expressa: se ajudem. Se apoiem. Escutem umas às outras (afinal, a ex namorada é louca? Por que será? O que ela poderia te dizer sobre isso?).

Enfim, dentre os últimos dias li em torno de quatro ou cinco depoimentos, em grupos feministas, de meninas pedindo ajuda para se libertarem de relacionamentos abusivos. Eu terminei esse livro há mais ou menos uma semana e achei que agora seria um bom momento para compartilhá-lo. A leitura do mesmo, com toda certeza, nos possibilita praticar a empatia, nos colocando no lugar do outro. Para quem observa de fora, é muito fácil atirar pedras e, com certeza, é muito difícil compreender os motivos de quem está envolvido. Amor Amargo te proporciona uma oportunidade excelente de acompanhar a história “de fora”, porém como se estivesse ali, dentro, ocupando o lugar da própria protagonista.
Quando era criança, nunca ouvi nenhuma mulher ao meu redor dizer que gostava do próprio corpo. Minha mãe reclamava constantemente que não tinha sido capaz de perder todo peso que ganhou durante a gravidez. Minhas tias estavam sempre de dieta, ou falando sobre dieta. Quando eu tinha 12 anos, uma delas decidiu fazer uma lipoaspiração pra modelar - de acordo com o que as pessoas ao redor consideravam bonito - um corpo que pra mim, uma criança, era perfeitamente saudável.

Eu não sabia ainda, mas mais tarde descobri que o monitoramento constante dos próprios corpos observado por mim não somente no ambiente familiar, mas também entre minhas amigas e 99% das mulheres com quem tinha contato era resultado da objetificação do corpo feminino, um mecanismo extremamente opressor e estruturalizado na nossa sociedade. Barbara Fredrickson e Tomi-Ann Roberts escreveram sobre isso em 1997 em um artigo que se propôs a explicar a Teoria da Objetificação.
"(...) meninas e mulheres são tipicamente ensinadas a internalizar a perspectiva de um observador como a visão primária de seus próprios corpos. Esta perspectiva sobre elas mesmas pode levar a monitoração constante do corpo, o que, por sua vez, aumenta significativamente as chances do surgimento do sentimento de vergonha e da ansiedade”.
Fredrickson e Roberts também constataram que mulheres tem seus corpos observados (dissecados, milimetricamente analisados) nos espaços públicos com muito mais frequência que os homens, por exemplo. Além disso, a grande maioria dos observadores, não contente em dissecar o corpo de uma mulher completamente estranha no meio da rua, ainda julga necessário tecer comentários de cunho sexual. Mas esses estudos são dos anos 80, nós já estamos muito além disso, certo? ERRADO. 100% e completamente errado.

O corpo feminino continua sendo analisado, avaliado, objetificado, sexualizado e escolhido dentre uma multidão de corpos naturalmente diferentes que jamais encaixariam em um único molde. A diferença é que agora nós tentamos lutar contra essa pressão externa porque, além de sermos bombardeadas a todo momento com imagens irreais do que é considerado um corpo ideal, também ouvimos a todo momento que precisamos ser mais gentis com nós mesmas, que não existe maneira errada de ter um corpo, que somos todas bonitas exatamente como somos.

E nadar contra a maré e amar o próprio corpo também causa estresse. Ansiedade. É um desafio que muitas vezes soa mais como um ato de coragem quando você percebe seu cérebro atacando o resto do seu corpo. Quando tudo ao redor tenta provar o contrário, aceitar que somos permanentemente imperfeitas e bonitas justamente por esse motivo é uma batalha diária que também cansa. Que também deixa marcas. E da qual não saímos vitoriosas todos os dias.

Isso tudo porque é fácil dizer que não há nada mais bonito que uma mulher confortável com sua própria imperfeição. É fácil dizer como deveríamos nos sentir e, logo depois, minar nossa percepção do corpo ideal com padrões de beleza inalcançáveis. E a frustração que vem do fato de não sermos capazes de aceitar nossos corpos como eles são mesmo sabendo que não há nada de errado em ser exatamente como somos é tão cruel quanto o sentimento de ser sempre muito alta-magra-gorda-baixa, mas nunca suficiente.

"Não deixe sua cabeça fazer bullying com seu corpo"

Quantas vezes você já se pegou pensando “odeio meu corpo, sou uma péssima feminista” porque metade do seu cérebro odeia seu corpo e a outra metade rejeita a objetificação? Quantas vezes você já se deparou em uma situação que colocava em risco sua saúde mental porque cedeu a pressão externa e a interna, ao mesmo tempo? Como daquela vez em que você deixou de sair com seus amigos, mas passou a noite em casa se culpando por sentir vergonha do próprio corpo. Quantas vezes você pensou “quero ser o tipo de pessoa que se sente bem no próprio corpo e não quer mudar nada sobre ele” e logo em seguida trocou o brownie que queria comer há semanas por quarenta minutos na esteira, mas no final das contas não se sentiu melhor por isso? Quantas vezes você se viu sem ter pra onde correr?

Amar e aceitar o próprio corpo é como começar uma revolução a cada manhã. E como qualquer revolução, essa também não se faz sem dor. Qualquer um dos caminhos vai nos receber com pedras e espinhos, mas só um deles vai ser capaz de nos fazer reconectar com quem realmente somos, com aquela parte de nós que, lá no fundo, sabe que nosso corpo é só um corpo, apesar de todas as mensagens culturais que tentam invalidar nossa certeza.

E se num dia a gente perde e no outro a gente ganha, onde e como vamos chegar é o que importa, mesmo que o saldo nem sempre seja positivo.

Por isso, sigamos.




Típico, não é? Mulher traída é anônima, o macho é garanhão. Mulher que trai é puta, com nome e sobrenome, CPF e redes sociais bem definidas. Macho traído, é corno, é coitado, tadinho, mas esquecido. Ninguém fala do marido traído por mais que dois dias. Agora, a puta que traiu... Essa não é esquecida tão cedo. Tem que ser exposta, exposta ao máximo, no estilo Tiradentes, que é pra servir de exemplo pra todas as outras se manterem dóceis. Não trai, não, viu? Se não, olha o que vai acontecer contigo.

E acontece. Acontece o slut-shaming* que persegue a moça por onde ela for. Semana passada, um conhecido meu veio, todo afoito, me perguntar se eu já sabia da Fabíola. 

Ela trabalha no mesmo lugar que eu, aquela vagabunda. 

Quem diria, hein? 

A gente nunca conhece as pessoas.

O único acerto dele foi a última fala. Sem dúvidas, a gente nunca conhece as pessoas. A gente não sabe que a coleguinha do lado pode estar traindo o namorado, porque ficou cansada de tantos abusos e falta de carinho. A gente não sabe que o cara com quem a gente transou semana  passada hoje está sentado na mesa de bar falando da puta que comeu semana passada e seus fetiches estranhos. A gente não sabe que ontem houve uma menina que resolveu sair de casa por ser constantemente violentada pelo próprio pai; a gente só sabe que ela é uma rebelde sem causa. A gente não sabe que aquele nosso amigo tão legal, tão gentil, semana que vem vai na mesma festa que a gente e se aproveitar de nós enquanto bebemos a terceira dose de tequila, porque, poxa, ele sempre foi tão legal, tão gentil. 

Mas a vida é isso. É não saber o que vai acontecer quando a gente virar a esquina. Eu não conheço você, você não me conhece. Mas nada te dá o direito de expor qualquer parte da minha intimidade. Isso só diz de você, não de mim. 

Não sei quem é Fabíola. Não sei se ela tem filhos, se gosta de sushi, se fez uma doação de natal para as crianças carentes. Não sei e não me importo. Por que, então, deveria me importar com a infidelidade dela frente ao parceiro? Não o conheço, tampouco gostaria de saber, através de um vídeo infeliz, que ele é capaz de agredir uma mulher. Aliás, me choca que as pessoas estejam mais preocupadas com memes engraçados a respeito da traição do que com uma agressão contra a mulher gravada em vídeo e publicada na internet. Dá pra contar nos dedos quem é que sabe o nome do marido traído. Ou do amante. Ninguém sabe. Todas as piadas envolvem única e exclusivamente Fabíola. Quantas piadinhas infames envolvendo "fazer as unhas" você escutou essa semana?

O que podemos tirar disso tudo? O que importa, no final do dia, é o ego masculino. O espetáculo todo se trata de ego e docilidade, não de amor, confiança e traição. O vídeo se trata de um macho alfa tendo sua "propriedade" roubada por outro. Quem leva uns tapas é a Fabíola, sobre quem o marido detém posse — não que qualquer tipo de agressão devesse existir, a ninguém envolvido na história, se perguntar a mim. Quem é xingada é a Fabíola. Quem virou motivo de chacota nacional foi a Fabíola. Foi a babá da Gisele Bündchen. Foi a Isis Valverde. A culpa é sempre da mulher. A culpa é dela usando roupa curta, é dela quando não consegue sair de um casamento abusivo, é dela que saiu à noite sozinha. Vivemos em uma sociedade que tem vítimas identificadas e chamadas, de forma extremamente bizarra, de culpadas. Nesta sociedade, não existe espaço para identificar os erros masculinos. Nunca. Existe, sim, muito espaço para a criação de inúmeras desculpas para quando os homens erram — "O marido da Fabíola bateu nela, sim, mas quem não bateria em alguém logo após uma traição?" ou "Quem mandou sair com outro? Agora aguenta" é o que a gente ouve quando afirma que traição não é crime, mas agressão física é.


Imagem de Flóra Borsi.

De qualquer maneira, uma vez, no segundo ano, eu gravei um vídeo na sala de aula, em que todos os meus colegas apareciam gritando e rindo, no intervalo entre duas aulas. Coloquei no Facebook. Quase fui expulsa do colégio por isso. E, a partir dali, não importava mais o meu histórico de notas boas e postura exemplar. Ninguém mais queria saber sobre o prêmio de poesia que ganhei na quarta série do fundamental ou do primeiro lugar no vestibular de treinamento no primeiro ano do Ensino Médio. Ninguém mais iria me dar as mãos me parabenizando. Porque, dali em diante, eu seria a menina que quase fora expulsa. 

Fabíola, você não será a vagabunda que traiu o maridão, não. Não para mim, ao menos. Você seguirá sendo uma desconhecida — mas com uma diferença: agora, eu torço muito por você. Torço para que você fique bem e para que a memória seletiva dessa sociedade cada vez mais doente te esqueça em breve. Vai acontecer, Fabíola, não pense que não. Amanhã vai aparecer algum assunto diferente e ninguém mais vai falar sobre você. Amanhã, alguma famosa vai aparecer com uns "pneus" na cintura ou sem calcinha num jantar, e ela vai ser o alvo da vez — e eu torço por ela, torço por todas nós, mulheres, que corremos diariamente o risco de ser o novo assunto do momento caso pisemos um pouquinho fora da linha socialmente delineada. Sei que as cicatrizes permanecerão e, por isso, eu torço sinceramente para que você consiga tocar com a vida. Mas não se martirize, não. Não se afobe. Não deixe que a ideia de moralidade dos imorais regule a sua vida. 

A única régua que deve importar é a sua, de mais ninguém. 


* Slut-shaming: termo em inglês utilizado para denominar toda a humilhação que uma mulher sofre quando é socialmente entendida como vadia. "Slut" significa "vadia", enquanto "shaming" é uma palavra que remonta à vergonha, mais especificamente em causar vergonha em outrem. Causar vergonha em uma mulher por ela ser uma vadia. 
Recentemente tive o privilégio de ir à uma palestra extremamente incrível. Na verdade, esse texto foi escrito exatamente no mesmo dia, porém por questões ~técnicas~ (como o fato de o blog ainda não estar no ar), salvei e esperei para postar.

O palestrante se chamava Eduardo Lyra e, para quem não o conhece, eu recomendaria o Google - porém prefiro não correr o risco de alguém não se dar o trabalho de procurar e, assim, resumirei em poucas palavras: um jovem, atualmente com 28 anos, que veio diretamente da favela - barraco de madeira mesmo, chão de barro - com o pai preso por envolvimento em quadrilha e assalto. Parafraseando o próprio Eduardo, tudo para dar errado: a sociedade faz as contas; negro + pobre + filho de presidiário = bandido.

Eduardo Lyra; imagem da internet.

Mas não. Eduardo se formou em jornalismo, escreveu um livro chamado "Jovens Falcões" - o qual ainda não li, mas pretendo -, fundou um projeto chamado "Gerando Falcões" (http://gerandofalcoes.com/) - no qual atua com jovens, buscando mostrar que há um outro caminho fora aquele que a favela - e a sociedade, no caso - costuma oferecer. Como Eduardo diz: "não importa de onde você veio, o que importa é para onde você vai" (não excluindo todas as barreiras e dificuldades existentes para mulheres, que são diferentes das barreiras existentes para negros, que são diferentes das barreiras existentes para pobres, etc).

Eu não sabia muito bem qual seria o primeiro texto que eu postaria nesse blog que já estava em construção, mas assim que saí do Instituto 3M (local da palestra) não tive dúvidas e martelei as palavras na minha cabeça durante todo o dia. E vou explicar os meus porquês.

Eu sonho em mudar o mundo. De primeira, assim, pode parecer um tanto quanto ousado demais. Mas eu literalmente acordo e durmo todos os dias pensando "o que eu posso fazer com a minha vida de forma a fazer alguma diferença nesse mundo?". Costumo dizer que um dos meus maiores pavores é acordar em sei lá, 20 anos, e me ver infeliz com a carreira que construí e/ou estar acomodada em um emprego simplesmente pela vantagem financeira que ele me oferece. O que quer que eu venha a fazer um dia, seja qual for o caminho que eu trilhe, eu só espero chegar a algum lugar do qual eu me orgulhe, no qual eu faça alguma diferença - e no qual eu inspire outras pessoas a serem melhores do que, naquele momento, são.

E esse é outro dos meus porquês. Eu acredito que poucas coisas são mais bonitas do que a capacidade de inspirar o outro. E, assim como a vontade de mudar o mundo, a vontade de inspirar as outras pessoas também pode soar um tanto quanto pretensiosa e pode atrair alguns olhares que imediatamente implicam um tom de deboche, de "quem você pensa que é?". E é aqui que eu gostaria de citar Mandela*, que foi citado por Eduardo em sua palestra (que me fez ficar arrepiada da cabeça aos pés em torno de 10 vezes em mais ou menos uma hora de duração).

"O grande medo não é o de que sejamos incapazes.Nosso maior medo é que sejamos poderosos além da medida. É nossa luz, não nossa escuridão, que mais nos amedronta.Nos perguntamos: 'Quem sou eu para ser brilhante, atraente, talentoso e incrível?' Na verdade, quem é você para não ser tudo isso? Bancar o pequeno não ajuda o mundo. Não há nada de brilhante em encolher-se para que as outras pessoas não se sintam inseguras em torno de você.E à medida que deixamos nossa própria luz brilhar, inconscientemente damos às outras pessoas permissão para fazer o mesmo."

Se eu precisasse resumir a palestra em poucas palavras, provavelmente utilizaria um trecho dessa citação: "bancar o pequeno não ajuda o mundo. (...) e à medida que deixamos nossa própria luz brilhar, inconscientemente damos às outras pessoas permissão para fazer o mesmo."

Em um certo momento, Eduardo se referiu ao que ele chamou de "senso de responsabilidade" e "senso de urgência". Existem muitas coisas que não podem esperar: o menino que passa fome, a mulher que apanha, o cara que acabou de sair da prisão - e já tem um traficante batendo na porta, convidando para voltar. Essas são questões urgentes. E quando nós notamos a responsabilidade que temos pelo nosso mundo, pelas pessoas ao nosso redor, pelos problemas sociais, por tudo aquilo que reclamamos e delegamos a responsabilidade ao outro, quando isso acontece, nós começamos a nos mexer. Nós buscamos fazer alguma coisa.

Ele questionou: "quem aqui já pensou em mudar o mundo?". Eu já, respondi em pensamento. Todos os dias. E naquele momento, eu estava pensando mais do que nunca.

A palestra reforçou minhas crenças, reforçou meus sonhos, meus desejos. Reforçou meu senso de responsabilidade, me inspirou de uma forma que, quando saí por aquela porta, eu literalmente queria resolver todos os problemas do planeta. E melhor do que isso: reforçou os sonhos e os desejos de várias crianças e adolescentes de uma ONG de Campinas, que estavam lá, ouvindo as mesmas palavras que eu - porém se identificando em um nível que eu jamais poderei imaginar. Várias crianças e adolescentes sendo inspirados ali, na minha frente, ao meu lado, junto comigo.

Achei que esse era o texto perfeito para ser o meu primeiro do blog, visto que a ideia do mesmo veio de um "debate" entre eu e Rafaela. Debate esse sobre a sociedade, um dos milhares que já tivemos. Nossos debates questionam, problematizam, nossos debates incluem ideias, incluem mudanças. Esses debates criaram esse blog que, apesar de vir de uma ideia singela e básica - escrever aquilo que discutimos e um pouco mais - esperamos que atinja alguém: uma pessoa, duas ou, quem sabe, três.

Porque mudar o mundo é isso: é trabalho de formiguinha. É um tijolo de cada vez. Até que você perceba que já levantou um muro todo e, de repente, que já construiu todo um castelo.

Assim sendo, sigamos, juntas! :)


* Errata: O Eduardo referiu-se à citação como sendo do Mandela, mas, segundo o Google, a frase é, na realidade, da escritora Marianne Williamson.



"Tranque as bibliotecas, se quiser; mas não há portões, nem fechaduras, nem cadeados com os quais você conseguirá trancar a liberdade do meu pensamento."
- Virginia Woolf


Começar um blog é sempre complicado. A gente nunca sabe como fazer isso, não sabe se manda um oizinho ou se começa logo despejando um bocado de informações que considera importante. Talvez a segunda opção seja muito apressada, então vamos com calma, por partes, com os esclarecimentos essenciais.

O que é este blog? É um blog coletivo, escrito por 6 mãos de diferentes lugares do país. Giuliana, nascida no RS e adotada em alma pelo RJ, graduada em Relações Internacionais; Rafaela, nascida e criada no ES, estudante de Direito; e Mariana, filha de SP, quase formada em Psicologia. Todas as três têm em comum, dentre algumas outras coisas, o gosto pela liberdade em poder expressar suas opiniões. O blog surgiu de uma conversa e uma angústia muito pessoal por um espaço para falar sobre tudo: de feminismo a terrorismo internacional; de seriados a crise política. 

Qual é o objetivo desse blog? O objetivo é só um: ter um lugar para derramar os pensamentos. Sermos lidas é um objetivo secundário, um "bônus", um "privilégio", que esperamos alcançar com a concretização do principal. Também estamos no Facebook e no Twitter.

Só vocês três podem escrever aqui? Não. Como a ideia é criar um espaço de escrita, ele se estende à qualquer pessoa (preferencialmente mulher, vide título do blog) que queira escrever, sobre o que bem entender. A única regra é que não haja desrespeito a qualquer direito fundamental. Queremos incentivar meninas a escreverem sobre seus anseios, suas angústias, suas visões de mundo, sem qualquer espécie de amarra. Se você tiver qualquer coisa a dizer, basta clicar lá em cima na aba COLABORE. Caso queira falar conosco por qualquer outro motivo, estamos lá em cima na aba CONTATO também.

Este é um blog feminista? Sim, mil vezes sim, sem medo de declarar que sim. 

Todo o resto é história. E sigamos.
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