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Ontem (28), tivemos o Baile da Vogue.  Aquele baile de carnaval dos chiques e famosos que nós só acompanhamos de longe, porque nunca teremos a oportunidade de ir. O tema era “ÁFRICA POP” e gerou polêmicas. O que seria “África Pop”? Isso tudo seria apropriação cultural? O que é, de fato, essa tal apropriação cultural? Quem pode e quem não pode usar essas “fantasias”?  Tá na moda ser preto?

Vamos começar pela APROPRIAÇÃO CULTURAL. 

O que é a apropriação cultural? É o uso de alguns elementos específicos de uma cultura x, que costuma ser marginalizada por um grupo de cultura y que tem privilégios sociologicamente falando e segrega este primeiro grupo. Note que falamos de culturas, de grupos sociais específicos e não de individualidades.

Sim, todos os brancos são opressores, assim como todos os homens são opressores. Não importa se você tenha amigos, parentes, ídolo ou o a pessoa próxima que for “de cor”. É uma questão social.

Continuando, imagine que esse elemento específico tenha um significado, um valor muito importante pra esta cultura oprimida, que seja um símbolo de luta, de tudo que eles lutaram, sofreram e foram segregados. Este elemento que para o povo branco é alvo de chacota, ódio e todos os tipos possíveis de opressão. Então esse elemento é pego por uma pessoa branca. E nessa pessoa branca os outros passam a achar legal, bonito, inovador, tendência. Tem um exemplo muito bom e bem didático que diz: “apropriação cultural é você fazer uma prova e tirar 0 e seu amigo, que colou de você, fez a prova idêntica, sem tirar nem pôr, recebe um 10”. É isso que acontece.

Quem decide o que é apropriação cultural? As pessoas oprimidas. Elas e apenas elas podem decidir se é ou não.

O baile da Vogue foi apropriação cultural? Sim, foi. Ah, se foi.

Por que? Por ter um público, em sua maioria, branco e, num geral, rico, usando como adereço, fantasia e diversão toda uma cultura de um continente que por anos e anos sofreu e sofre ainda muito com a opressão social, segregação, racismo, por conta de religião, enfim...  Inúmeros motivos e brincar com isso. A África, o continente africano, não é um elemento pop a ser vendido, comercializado ou explorado dessa maneira.

No nosso país, apesar de ter um grande número de pessoas negras, maior que o de pessoas brancas, ainda sofremos com racismo, em diversas formas. E apesar, também, de existirem vários artistas, cantores, atores... Enfim, pessoas negras famosas, há a falta de representatividade. Porque essas pessoas, em sua maioria, não têm o talento explorado como deveriam, não têm chances de aparecer, são extremamente marginalizadas (especialmente os músicos) e, claro, atores representam sempre papéis de pobres e empregados. Então, a Vogue BRASIL, usando desse tema que dizem eles “celebrar a cultura africana/negra” num país onde os negros não são valorizados, nem os ricos e famosos, é uma tremenda falta de respeito.

Ilustração do Ribs, disponível aqui.

Neste baile também está explícita a hiperssexualização da mulher e, em especial, da mulher negra, visto que as caracterizações usadas por essas mulheres são, em grande maioria, com muita transparência e nudez (Vide Sabrina Sato).

Como o blackface (ou seja: pintar o rosto de preto) é crime, ninguém realmente pintou o rosto de preto, mas houveram inúmeros bronzeados artificiais e maquiagens de tons mais escuros para tentar “representar” o negro.

Em tempos onde o movimento e a militância negra está cada vez mais ativo, mais preocupado, mais empoderado, acaba por parecer uma piada de mal gosto extremo essa festa, esse tema, para branco se fantasiar de negro.


A cultura negra, indígena ou as outras que eu citei antes não são elementos da moda, não são descobertas do mundo fashion. Elas já existiam antes, elas sempre foram desrespeitadas e não é o momento nem a hora de decidir ganhar dinheiro ou se divertir por uma noite em cima delas. Respeito é uma palavra que a cada dia que passa se esvai do vocabulário de todas as pessoas do mundo. Assim como a empatia, não faça com os outros o que não gostaria que fosse feito com você. Se ponha no lugar do próximo, não roube suas culturas, seus elementos de luta pra usar como mero adereço.

Taís Araújo, Juliana Paes e Glória Maria, três mulheres negras que arrasaram no baile. Taís representa a fauna e a flora africanas, enquanto Juliana representa Iemanjá.


Por fim, deixo alguns links úteis para saber mais sobre o tema:


https://www.youtube.com/watch?v=o73oVBJVM2M “Vamos falar sobre: APROPRIAÇÃO CULTURAL” de Nataly Neri 

https://www.youtube.com/watch?v=CyDAceq6NvQ  “Dont cash crop my cornrows” de Amanda Stenberg


http://www.geledes.org.br/esta-na-moda-ser-preto-desde-que-voce-nao-seja-preto/ “Texto: Está na moda ser preto, desde que você não seja preto” de Rodrigo Teles Medrado em geledes.org.br






 SOBRE A AUTORA CONVIDADA: Rafaela Amaro, 20 anos, negra. Está no 4º semestre  do curso de  Licenciatura de Língua Inglesa e é participante do movimento  negro.
Vivo sendo chamada de extremista. O tempo inteiro. Por quase todo mundo — mas, na grande maioria (antes que digam que estou generalizando e, bingo: sendo extremista) das vezes, homens. Não importa a que pé anda a discussão, se estamos falando sobre direitos igualitários ou sobre o preto de favela que foi morto pela PM, eu sou sempre extremista demais, nervosinha, descontrolada, e por aí vai. 

Dia desses, falei em um grupo de amigos que não gosto de frequentar boate hétero. Não gosto mesmo. Na última vez em que pisei numa, eu e minhas amigas fomos cercadas por dois caras inconvenientes, que, mesmo após inúmeros pedidos, não se afastaram. Tivemos que chamar os seguranças — e, ainda assim, depois de um tempo, os caras voltaram. Odeio balada hétero e não é de hoje. Decidi, há muito tempo, deixar de frequentar lugares onde sei que serei hostilizada, que não terei posse do meu próprio corpo (uma vez que já vivo isso, involuntariamente, todos os dias — se eu puder evitar na hora de decidir pra onde ir, farei; por quanto tempo precisar) e, se protestar pelo direito de dizer "não", correr o risco de sofrer algum tipo de violência física — a verbal é quase certa. Decidi evitar o máximo da misoginia disfarçada de diversão há muito, muito tempo. 

Falei tudo isso, contei uma, duas, três (três!) situações em que aconteceram exatamente esses tipos de situações de violência. Meus amigos, homens — e até mesmo uma mulher —, duvidaram. "Não é bem assim", "Acho que você apenas está frequentando as baladas erradas", "Nem todo cara é assim". Quanto à minha amiga que duvidou e relativizou a coisa toda, eu só preciso dizer que: não é porque uma situação é desconhecida para você que ela não aconteça com outra pessoa. 

Agora, eu não vou entrar no mérito de explicar os motivos pelos quais você, homem, nunca deve vir com esse papinho de nem-todos-os-homens, porque, pra mim, esse assunto é tão passado e tão chulo, que não cabe mais tratar. Quando uma mulher diz que se sentiu violentada em algum momento da vida dela (99,9999% de chances de já ter acontecido ao menos uma vez na vida de absolutamente todas as mulheres, mas tá!), o mínimo que você, enquanto homem, pode fazer é abaixar a cabeça e repensar suas próprias atitudes pra não ter a mesma que a mulher relatou. A postura correta é essa. Não vir na defensiva atirando que nem-todos-os-homens ou não-é-bem-assim.

Isso também é violência. 

Isso também é silenciamento. 

Isso também é... atenção... MACHISMO!

Pa pa pa pa!

Ao vir com o papinho de nem-todos-os-homens, você está tentando diminuir/apagar/invalidar a vivência de uma mulher, sobre a qual ela e tão somente ELA deve ter voz na hora de falar. 

Você entra exatamente no grupo de todos-os-homens. 

Você confirma o discurso dela.

Você prova que, sim-todos-os-homens.

Quando eu disse isso (e, veja, não foram uma ou duas vezes: foram várias vezes, porque convivo com muitos homens e em muitos ainda tenho fé na hora de conversar; nem sempre ela persiste), o que eu ouvi foi: "Impossível conversar contigo; você é muito extremista". Aqui, eu sou mais uma vez vítima de machismo, porque estou tentando gritar sobre algo que me incomoda e estou sendo silenciada. E a pior parte é que eu passo a me questionar se sou mesmo extremista, se não estou exagerando, se não estou enlouquecendo. Eu internalizo a violência atirada na minha cara e questiono a minha própria postura enquanto vítima. Eu me culpabilizo, me diminuo. Eu absorvo o discurso que o patriarcado quer que eu absorva: se você, mulher, está incomodando algum homem, ao relatar qualquer coisa que ele não quer que você relate, ei, você precisa voltar "ao seu lugar" e ficar quietinha.

Ligo a tv. Mais uma mulher morta pelo namorado devido a um ciúme doentio que leva-o a crer que ela é propriedade dele. Troco o canal. Globeleza, negra, nua, sambando em horário nobre, como se um objeto fosse. Mudo o canal mais uma vez. O Espírito Santo é, há dez anos, segundo o repórter, o estado que mais mata mulheres apenas por serem mulheres. 

Me pergunto quantas dessas mulheres pediram por socorro. Quantas tentaram relatar abusos. Quantas tiveram seus relatos diminuídos por homens que acham que não é bem assim e que nem todos os homens. Quantas delas tentaram avisar que estavam sofrendo violência psicológica constante até que essa violência se materializasse em forma de uma facada no pescoço ou um tiro na nuca. Quantas delas precisaram morrer para serem, enfim, ouvidas.

Desligo a tv.

Extremista, eu? 

Sério?



Eu não quero filhos. 

É muito engraçado como essa ideia é extremamente clara na minha cabeça. Independente do cenário em que eu me imagine daqui há alguns anos, em nenhum deles eu consigo me imaginar com uma criança. Eu me imagino realizando coisas ótimas, ajudando muita gente, me imagino em um relacionamento bacana, mas eu não consigo me imaginar, de forma alguma, responsável por outra vida. 

E eu não tenho que conseguir me imaginar.
Eu não tenho que querer um filho.
Eu não tenho que ter um filho para me sentir uma mulher "completa".
Eu não tenho que absolutamente nada.
Eu sou uma mulher completa porque eu sou uma mulher completa. E ponto final.

Sei que existem diversos textos a respeito desse assunto em praticamente todos os blogs feministas existentes, mas eu sinto vontade de falar sobre isso há muito tempo e agora posso falar sobre isso aqui. Nada acadêmico, nada extremamente desenvolvido, apenas o que me incomoda há muito tempo e tenho certeza de que o faz a outras meninas também.

As pessoas precisam entender o perigo desse tipo de discurso. Em primeiro lugar, existem infinitas mulheres mundo afora que não queriam ser mães e hoje são. E essas mulheres, muitas vezes, acabam realmente se sentindo muito bem em tal papel - social e emocional - e eu acho isso ótimo. Mas muitas mulheres não o fazem. Existem muitas mães que sofrem de depressão pós-parto severa por se sentirem obrigadas a criar um vínculo com a criança que a sociedade prometeu que ela seria capaz de criar assim que o bebê viesse ao mundo, mas adivinhem só? Não existe passe de mágica algum. Essa crença de que toda mãe irá sempre criar um amor imediato pelo seu filho gera, em muitas mães, um sofrimento absurdo e completamente dispensável. 

Além disso, quando eu digo que não quero filhos, ninguém - absolutamente ninguém - algum dia me perguntou: "sério? e o que você faz da vida? quais são seus sonhos? o que você quer no futuro? o que você quer hoje?". Todo mundo sempre me questiona: "mas como assim? TODA mulher quer ser mãe".

Automaticamente, com esse discurso, a pessoa quer ditar o que eu devo querer. E, caso eu não queira, quer questionar o quão "mulher" eu sou, visto que todas querem - como eu posso não querer?

Jennifer Aniston, como um grande exemplo, é uma mulher maravilhosa. Dona de Hollywood. Rainha de Friends. Ganhou (ganha) e fez (faz) muito sucesso na profissão que escolheu. Mas tudo o que a mídia soube falar por muito tempo - e ainda fala nos dias de hoje - foi sobre o quanto ela estava infeliz por não exercer o papel de mãe. 

Não, nem toda mulher quer ser mãe. Assim como nem toda mulher quer casar. Assim como nem toda mulher quer trabalhar fora de casa. Assim como nem toda mulher quer ter qualquer tipo de relacionamento. E assim por diante.

Nenhuma mulher tem que querer NADA.


O que a sociedade precisa entender é que a realização pessoal se apresenta de diferentes formas para TODAS as pessoas. Assim como nem todo homem é obrigado a querer nada, as mulheres também não devem ser cobradas para tal. Existem mulheres que sonham com a maternidade desde sempre? Existem, muitas. Mas não deve ser considerado regra, em hipótese alguma. 

Você precisa querer aquilo que te faça bem. Aquilo que te faça feliz. Seja lá o que for - desde que não lhe faça mal ou não faça mal à terceiros. Fora isso, amiga, a vida é SUA - exclusivamente sua -, independentemente do que a sociedade lhe diz.

A verdade é que: não importa o que você faça, alguém sempre irá te cobrar alguma coisa. Casou? Que bom, mas e o filho? Teve um filho? Que bom, mas e o segundo? Parou de trabalhar porque não tem quem cuide das crianças? Mas e agora, e a sua carreira? Ninguém nunca vai te deixar em paz. É absolutamente impossível agradar todo mundo. Mas a verdade é que quem vai viver a sua vida é você. Seu emprego é seu, é você que o frequenta todos os dias; o filho é seu, é você que vai ter que cuidar para o resto da vida; a vida é sua: e ninguém vai viver no seu lugar. Está sempre todo mundo pronto para dar opiniões, mas se o calo apertar, se as coisas ficarem difíceis, ninguém vai querer viver os seus problemas por você. Portanto, a única opinião que deve ser levada em consideração ao tomar uma decisão é a sua. Considere sempre o que você pensa, o que você sente, quais são as suas vontades. 

Ignore qualquer um que te diga que você precisa de algo para ser completa: seja esse algo um relacionamento, seja esse algo uma criança. O que você realmente precisa para é você mesma e as suas realizações: que, muito provavelmente, são diferentes das minhas e... guess what? Não tem absolutamente nada de errado com isso.

À todos, uma dica: da próxima vez que alguém te disser que não quer alguma coisa, responda apenas "ah é? que legal" e siga a tua vida. 

Ninguém perguntou o que você pensa sobre isso.
Equidade no mercado de trabalho, combate à violência sexual e doméstica, empoderamento feminino, aborto, ruptura de hierarquia de gênero e liberdade sexual são apenas algumas das lutas e temas que pautam as discussões dentro do feminismo. Num primeiro momento, a documentação do feminismo como movimento social e a disseminação das pautas defendidas pelas mulheres foi buscada como uma forma de legitimar e difundir os ideais do movimento, estimulando o debate e a articulação das mulheres que se reuniam em torno de um mesmo propósito. Na década de 70, quando redes sociais, serviços de streaming e internet eram sonhos distantes, a mídia alternativa entrou em cena e jornais foram criados no intuito de dar visibilidade à causa.

De lá pra cá muita coisa mudou - ainda bem-, e muito embora mulheres escrevam sobre mulheres e problematizem as bases e preceitos da sociedade patriarcal em que vivemos desde muito antes de 1970, a voz feminina tem conquistado mais espaços e se propagado com uma velocidade e alcance muito maior. Prova disso são os inúmeros livros, filmes, seriados e documentários produzidos que se propõe a expor essa história de resistência, a discutir questões como autonomia reprodutiva e, principalmente, a representar de forma honesta e livre de estereótipos a figura da mulher por meio da criação de personagens femininas com as quais as mulheres possam realmente se identificar.

Foi pensando na importância de alcançarmos cada vez mais mulheres que fiz uma lista de livros, filmes, etc pra indicar pra vocês. Então se você se interessa pelo assunto e não sabe por onde começar, se você não tem o que fazer e está procurando uma dica legal pra alegrar seu domingo de verão ou se o Google te trouxe aleatoriamente até aqui, esse post é pra você.

  • Séries


Broad City: Abbi e Ilana são duas sem noção, e isso não quer dizer que nós as odiamos, mas sim que as amamos justamente por isso. A série é escrita e feita por mulheres (Abbi Jacobson e Ilana Glazer, mais um pontinho pra elas) para mulheres. Tão pobres e ferradas quanto as protagonistas de Two Broke Girls, as duas trazem um baita alívio cômico e a leveza que o tema ser jovem e não saber o que está fazendo com a própria vida mas fazer algo mesmo assim tanto pede A cereja do bolo? Amy Poehler como produtora executiva.

The Mindy Project: A sexualidade feminina talvez seja um dos assuntos que mais sinto falta de ver representada de forma despretensiosa e real, e aqui esse assunto não é tabu. A naturalidade na abordagem vem do fato de estarmos falando sobre uma comédia escrita e protagonizada por mulheres que, ponto importante, não são brancas, e todas nós sabemos que representatividade importa sim senhor.

+: Parks and Recreation, Jessica Jones, The Killing, Scandal, The Fall, Bob's Burger, Code 37, Masters of Sex, The Good Wife, How to Get Away with Murder, Orange Is the New Black, Garfunkle & Oates, Grey's Anatomy.

  • Filmes e documentários


Persépolis: Esse filme me ensinou muitas coisas sobre o feminismo. Tudo começou com uma graphic novel autobiográfica de Marjane Satrapi e acabou se transformando numa das animações que mais me cativaram ao contar a história de Marji, obrigada a usar o jihab aos 10 anos de idade. A personagem a todo momento aponta e questiona a diferenciação nas regras impostas para homens e mulheres nos ambientes pelos quais transita, e condena o discurso paternalista que desmoraliza a figura feminina dentro do contexto do Regime Islâmico e da sociedade iraniana.

A Cor Púrpura: Baseado na obra de Alice Walker, em que a autora conta a história de Celie, uma jovem negra abusada sexualmente pelo pai e presa em um relacionamento abusivo. A trama se desenvolve por meio das cartas escritas pela protagonista, evidenciando o sofrimento da mulher negra e sua luta em uma sociedade machista e racista.

+: As Sufragistas, A Fonte das Mulheres, As Horas, Histórias Cruzadas, Flor do Deserto, Frida, Juno, Livre, Mulan, O Sonho de Wadja, Sylvia, Thelma & Louise, As Pequenas Margaridas, Nosso corpo nos pertence, What happened, Miss Simone?, Mercedes Sosa, Domésticas, Girl Rising, O corpo das mulheres.

  • Livros


Um teto todo seu: Esse livro da incrível Virginia Woolf foi um dos primeiros que li sobre feminismo, e até hoje considero uma das leituras mais leves sobre o assunto, mesmo que as mais cruéis constatações sobre a vida da mulher em uma sociedade patriarcal sejam feitas. Resultado de uma série de palestras dadas pela autora na década de 20, os temas abordados por ela nos capítulos que dividem a obra vão do ódio masculino pelo gênero feminino, passando pela dificuldade das mulheres em se fazerem presentes nos círculos mais intelectualizados da sociedade, relatando ainda com honestidade e livre de estereótipos o amor entre duas mulheres.

Memórias da Transgressão: Sendo completamente parcial, digo que vocês precisam ler esse livro que reúne uma série de artigos escritos por Gloria Steinem. A autora faz denúncias importantes e discorre sobre os mais variados assuntos, desde transexualismo à direitos humanos e mutilação genital. Destaque para o artigo "Se os homens menstruassem".

+: O mito da beleza - Naomi Wolf, Sejamos todos feministas - Chimamanda Ngozie Adichie, Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade - Judith Butler, Três Vidas - Gertrude Stein, Um útero é do tamanho de um punho - Angélica Freitas, O segundo sexo - Simone de Beauvoir.

  • HQs


Bordados: Outra graphic novel de Marjane Satrapi, em que a autora utiliza o hábito que as mulheres de sua família tinham de conversar entre si após o almoço como forma de colocar a mulher na posição não somente de protagonista de sua própria história, mas também de narradora. Os diálogos entre as personagens da história podem ser diferentes daqueles que você está acostumada a ouvir desde criança entre as mulheres da sua família, mas ambos tem um denominador comum: o ponto de vista feminino.

Orquídea Negra: Essa é pra quem gosta de histórias de super heróis, porque estamos falando de Neil Gaiman (um dos meus autores favoritos de todos os tempos) contando a história de Susan Linden e suas incríveis vidas. O que mais gosto nessa minissérie de três partes é o fato de que a protagonista se recusa a aceitar a identidade a ela atribuída pelo nosso velho amigo Batman, jamais se autodenominando Orquídea Negra, questionando assim uma prática tão comum na sociedade patriarcal em que vivemos: a da crença por parte dos homens de que eles tem o direito de dizer a nós mulheres quem e como devemos ser.

+: A-Force, Capitã Marvel, Sonja, Fun Home, Princeless, Mafalda, Anna Bolenna - A perturbada da corte, Menina não pode, Habibi, Mulher Maravilha, Rat Queens, Anya's Ghost, O paraíso de Zahra, The Brinkley Girls, Garota Siririca.



*A maioria das indicações acima possuem o selo li/assisti e recomendo fortemente de qualidade.

O Espírito Santo se confirma como líder em violência contra a mulher com requintes de crueldade que levam a uma reflexão mais profunda. No último sábado (02), uma adolescente de 12 anos teve a cabeça raspada pelo pai, um comerciante de 53 anos. A justificativa dada pelo homem é que a menina chegou em casa com o cabelo pintado com mechas de papel crepom verde.

Deixei essa informação para o final do parágrafo por considera-la reveladora também, especialmente no contexto de cobertura da mídia tradicional. Todos os veículos trouxeram como justificativa do crime a pintura do cabelo. Isso é doentio e reforça a legitimação do controle do homem sobre corpo e comportamento feminino. Portanto, vamos colocar os pingos nos i’s: o homem diz que raspou o cabelo da menina por causa da mecha verde, quando na verdade ele raspou o cabelo da menina por que julgou-se poderoso o suficiente pra isso. Por que ele acredita, como a maioria dos homens, que a mulher é uma fonte de satisfação masculina. 

Por força da minha profissão (sou jornalista e trabalho com monitoramento de mídias sociais), me deparei com muitos debates acerca desta notícia lamentável. Vários deles sustentavam a hipótese de que o pai foi correto na atitude, afinal “muitas meninas se perdem na vaidade se não forem corrigidas”. Não parece incrivelmente nojento que o desrespeito aos direitos humanos ainda seja considerado uma alternativa viável de educação? Vez ou outra tento contabilizar quantas tentativas de suicídio, automutilação, antidepressivos e afins ainda serão necessários antes que os pais entendam o peso da humilhação causada por eles na vida de uma filha. 

Fonte

Não bastasse o senso comum criando as meninas para ter medo dos homens, para atender prontamente às suas demandas e expectativas, o pai que tolhe a autonomia da filha potencializa de maneira assustadora essa opressão. É mais um vigilante do peso, dos bons modos e bons costumes, mais um inimigo estabelecido pela força social do ódio e do poder. O desespero cego por ter uma filha que atenda aos requisitos machistas com os quais já estamos acostumados supera qualquer idealização de amor paterno. E então, de onde menos se espera, te ensinam a culpa. Aquela mesma culpa que martela na cabeça da mulher toda vez que ela decide algo em nome de si mesma – deixando de lado as convenções sobre trabalhar meio expediente para priorizar a família, falar baixo, comer salada com suco de laranja sem açúcar e ter as unhas feitas. 

Sempre que tratamos de minorias é necessário fazer um esforço sincero para enxergar além. Não é “só” uma questão. A opressão se estabelece em camadas cruéis e lima a dignidade humana com uma profundidade assustadora. Ter o cabelo raspado à força, por mais horrível que isso já transpareça na frase, ainda diz muito pouco. Ter o cabelo raspado à força não é simplesmente sobre ficar careca. É sobre ter o espaço do próprio corpo violado, invadido. É sobre sofrer uma punição descabida por uma infração que não existiu. É ter uma brincadeira de criança transformada num crime contra a individualidade e a dignidade de uma menina. 

Para nossa pequena mana de 12 anos, trago uma péssima e uma ótima notícia. A péssima: eles acreditam piamente que estão certos. Acreditam que temos a obrigação de sermos magras, ternas, submissas, domináveis e escravas da estética. A boa: isso é resultado de narrativas perversas incutidas há séculos e reafirmadas em relações de poder cruéis. Ou seja, isso pode ser mudado se construirmos cenários diferentes. Não é fácil, mas certamente é muito mais justo que acomodar-se ao cenário de opressão diária e machismo constante.

E então? Vamos juntas <3
"ALGUÉM TEM UM ABSORVENTE? ACABEI DE FICAR MENSTRUADA, anuncio em voz alta a ninguém em particular no banheiro feminino de um restaurante em São Francisco, ou a quem estiver no camarim de um festival de música em Praga, ou ao pessoal entretido na cozinha de uma festa em Sydney, Munique ou Cincinnati.
(...)
Hoje é a minha vez de pegar o absorvente. 
Amanhã será a sua.
Existe um círculo cármico constante de absorventes. Descobri que existe também com lenços de papel, cigarros e caneta.
Muitas vezes me perguntei: será que existem mulheres tímidas DEMAIS para pedir? Mulheres que preferem enrolar um monte de papel higiênico e enfiar na calcinha, em vez de pedir um favor num lugar cheio de desconhecidas? Devem existir. Mas não eu. De jeito nenhum. Não tenho o menor medo de pedir. De pedir nada.
Sou DESCARADA."

Assim é que Amanda Palmer, artista americana, casada com um dos maiores escritos de ficção da atualidade, Neil Gaiman, começa o último livro que li em 2015 — e o que eu preciso levar pra 2016 com todo o carinho no meu coração. A Arte de Pedir é um livro, eu descobri, que muda as vidas de muitas pessoas. Mudou a minha, mudou as de mais duas amigas e eu espero que sirva para muita gente ainda. Resolvi dizer alguns dos motivos pelos quais acho que este é um livro essencial.

Em 2015, eu comecei e encerrei meu tratamento com psiquiatria e voltei à psicóloga, o que precisarei fazer por toda a minha vida, ao menos duas vezes por mês. Passei longos anos lutando contra a depressão e o ódio a mim mesma, tempo que poderia ter sido muito reduzido se eu fosse capaz de pedir ajuda ao invés de fazer tanto esforço para deixar dicas de que precisava ser ajudada. Lembro-me exatamente da noite em que meu irmão, após mais um surto meu, veio até meu quarto e disse: "Quero que você saia dessa e vou te ajudar". Ele pegou as dicas, mas seria muito mais fácil se eu simplesmente pedisse por ajuda.



Pedir por ajuda não é uma tarefa automática, exige muito treino, dia após dia. Porque pedir ajuda significa se assumir vulnerável, e todos nós odiamos fazer isso — somos levados a nunca, jamais, fazê-lo. Contudo, neste livro, que nada mais é do que um desabafo pessoal muito sincero, Amanda Palmer faz questão de lembrar-nos que somos humanos e, portanto, limitados — e que não há absolutamente nada de errado nisso, muito pelo contrário. A beleza em ser vulnerável e se assumir assim reside em perceber que absolutamente todas as pessoas também o são — e, juntas, elas se ajudam mutuamente e a vida se torna muito menos pesada do que por vezes parece ser.

Mas, não. Pedimos desculpas antes de pedir ajuda, porque sempre pensamos que estamos incomodando os outros, que, por vezes, não querem nada além de fazer exatamente isto: ajudar. Desculpamo-nos por nossas fraquezas, perdemos tempo demais pensando no quão errados somos por não sermos invencíveis, ao invés de entender que ninguém está imune a momentos de fraqueza, que tudo bem e que ajudar é tão natural quanto ter falhas. A graça é justamente a imperfeição. De todo mundo.

Ainda assim, pedimos desculpas.

Isso porque somos treinados para pensar que nessa sociedade não existe lugar para os fracos. Estamos sempre brigando por um lugar ao Sol, pelo primeiro lugar, pelas maiores notas e o carro do ano. Estamos constantemente nos desafiando e quase não sobra espaço para nos permitir encarar nossas fraquezas. Assim é que Palmer relata as diversas vezes em que ouviu "ARRUME UM EMPREGO!" quando trabalhou como estátua de rua, e, mais tarde, quando resolveu voltar-se ao financiamento coletivo, pedindo ajuda de seus fãs [ela é cantora]. De crítica em crítica, poucos laços são criados, a vulnerabilidade é vista como inaceitável e a condição humana se torna cada vez mais distante. 

Distanciamento, aliás, é outro conceito muito bem trabalho pela autora. Trabalhando como estátua, ela diz, muitas foram as vezes em que pessoas solitárias pararam na frente dela apenas para trocar olhares. Elas colocavam as moedas ali, Amanda olhava para elas em agradecimento e o que acontecia naquele instante parecia uma cumplicidade instantânea, um momento de intimidade que é cada vez menos comum. As moedas eram o que Amanda precisava e seu olhar era o que aquelas pessoas precisavam. Todo mundo acabava saindo com menos peso na existência. Minha amiga, Anna, disse que, desde que leu o livro, já interagiu com algumas estátuas humanas e foram experiências únicas. Experiências de ver e ser vista.

"Naquele mesmo retiro de ioga, ficamos de pé, parados, um de frente para o outro, em pares, nos olhando bem de perto. Era para simplesmente ESTAR com a outra pessoa, mantendo contato visual, sem fazer nenhum gesto social para ficar à vontade, como rir, sorrir ou pestanejar.
E as pessoas choravam. Homens e mulheres. Soluçavam de verdade. 
Quando terminamos o exercício, comentamos nossas sensações. O mesmo tema ressurgiu várias vezes: muitos nunca tinham se sentido tão vistos pelo outro. Vistos sem paredes, sem críticas... só vistos, reconhecidos, aceitos. A experiência foi — para muitos — dolorosamente rara."


Palestra da Amanda no TED Talks, que inspirou o livro.

O que eu levo desse livro vai muito além do que seria capaz de expressar em um post, então eu só espero que ele sirva para lembrar-me que é ok ser vulnerável, assumir-me assim, pedir ajuda e estar sempre com os olhos bem atentos, as mãos bem abertas e a mente preparada. Olhos atentos para saber quando o outro me pede ajuda silenciosamente através de sinais, mãos abertas para ajudar qualquer pessoa que precise de ajuda e a mente preparada para saber distinguir quando ajudar o outro e quando ME ajudar — bem como aceitar que a vulnerabilidade também reside em, às vezes, não ser capaz de ajudar como gostaria. Ter empatia com os outros e ser gentil comigo mesma, em resumo. É o que eu espero para 2016 — e a única meta que irei estabelecer para mim.

Por fim, fica a dica de um livro maravilhoso e a esperança de que ele mude a vida de vocês também. A minha eu sei que ele mudou.
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