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Home Archive for 2016
Ontem e hoje, a internet explodiu com a notícia de que Carol Moreira, youtuber de longa data, que fala sobre os mais diversos assuntos da cultura nerd e afins, foi assediada — em vídeo — por Vin Diesel. Infelizmente, Carol foi alvo daqueles hate coletivos. Penso que esse grupo de gente fã daquele cara que prefiro não mencionar (muito menos relacionar aos minions, que são fofinhos demais) deve ter uma espécie de grupo no facebook ou no whatsapp, e fica esperando alguma coisa do tipo pra se juntar, em bando, e comentar asneiras. Não dou ouvidos. Nem deveríamos. Este texto, portanto, é para quem quer ler e entender por qual motivo a entrevistadora foi assediada, não elogiada, e como isso é reflexo do machismo que a gente encara todo santo dia. 

A princípio, não consegui ver o vídeo inteiro. Não achei que fosse ser capaz, mas fui. A Carol começa lindamente, demonstrando que fez um puta trabalho de pesquisa, o que imagino que seja um reflexo já implícito dessa sociedade nossa, que faz com que a mulher precise se esforçar muito mais do que os colegas homens. Já reparou nisso? Em como a mulher precisa ser extremamente dedicada pra conseguir um espaço em que seja valorizada para além da aparência? Pois bem. Carol faz perguntas sobre a carreira do Vin Diesel sobre fatos que, sinceramente, eu jamais saberia não fosse por ela. Tá claro que ela fez o dever de casa, e muito bem. As perguntas não são do tipo "qual é a sua cor favorita?", não, meu amigo: são perguntas de quem sabe o que é o papel do jornalismo bem feito. E, vai por mim, eu tenho certeza que você não espera tamanha excelência de um cara. Somos cobradas mais porque precisamos nos provar pra conseguir qualquer coisa. Carol faz isso. Lindamente.

Aí ele interrompe uma pergunta sobre o Tom Hanks pra falar, já num tom esquisito, que ela é linda e ele está apaixonado. Ela leva numa boa, diz que está envergonhada e busca voltar ao assunto, claramente incomodada: "Obrigada, estou envergonhada. Conte-me sua história [com o Tom Hanks]...", e o cara não se liga, aproveita a fala da Carol pra chamá-la pra sair dali, pra que ela conte a história dela, que claramente não vem ao caso. Só isso já seria completamente sem noção, pra dizer o mínimo, uma vez que ninguém interrompe homem em seu ambiente de trabalho pra falar, tipo: "Deixe disso, vamos almoçar, conte-me o que quiser". Mas, tá, vai, pra galera que crê que ~mimimi elogio não é problema~, eu digo que talvez fosse okay se ele tivesse parado por aí. 

MAS NÃO.
Ele repete. 
Mais duas vezes.



A segunda me deu nojo, pra ser franca. Ele diz: "you're so fucking sexy" (você é sexy para caramba). Sexy? Sexy não é elogio. Não no contexto de uma entrevista com uma profissional. Num bar, talvez. Num encontro, quem sabe. Não numa entrevista, jamais numa entrevista. Depois, ele diz que está apaixonado — e aqui a Carol não deixa passar uma cara de desprezo, nervosismo e incômodo. Diz que a ama. Começa a caminhar na direção dela(!!!) como que para um abraço meio absurdo ou mesmo para se esfregar(!!!) nela. Se você não viu essa parte da entrevista, concordo com você, pode ter sido "só" um elogio. Tendo visto, você não pode simplesmente dizer que não houve assédio. 

Se você procurar no google o significado de assédio, aparece assim: insistência impertinente, perseguição, sugestão ou pretensão constantes em relação a alguém. Ponto. Se a Carol já ficou visivelmente envergonhada e querendo seguir com a entrevista logo na primeira "investida" do Vin Diesel e mesmo assim ele continuou, isso é assédio, ponto. Eu não quero saber como ela agiu com outros atores. Este pensamento é tão ridículo e fica ridiculamente explicitado quando coloco assim: 

imagine que você está saindo com uma menina. Antes de sair contigo, ela saiu com outro cara, com quem transou na primeira noite. Vocês estão no primeiro encontro, mas ela deixa claro que não tem intenção em ir para a cama contigo. Você vai mesmo assim, forçando-a, dizendo que ela aceitou com o outro cara. O nome é estupro. Ponto. 

O passado de uma pessoa não justifica qualquer tipo de violência verbal, psicológica ou física. Eu não quero saber o que Carol fez no passado, com quem, onde ou como. Eu quero saber do que aconteceu agora, e tem vídeo comprovando. Por que é tão difícil aceitar uma denúncia? Por que é tão mais fácil fazer um esforço absurdo pra culpar a vítima do que pra condenar uma atitude explicitamente condenável? Por que é tão mais fácil procurar qualquer "brecha" que seja na história da Carol do que aceitar que o Vin Diesel foi, além de sem profissionalismo, um machista escroto e babaca? 

E eu não vou nem entrar no mérito do cara ter vindo pro Brasil pensando que podia fazer o que quisesse, porque mulher brasileira sofre uma hiper-sexualização absurda, fomentada por todos os tipos de mídia, o que coloca na cabeça desses gringos que aqui é tudo liberado. Não é. Assédio não é liberado em qualquer lugar do planeta. E se ele não percebeu o desconforto da moça, pelo amor de Deus, eu não quero nem pensar no quanto de bom senso falta na cabeça dele. 

Aliás, para ser sincera, e partindo pro encerramento, já parou para pensar que mesmo que não fosse bonita, a Carol ainda poderia sofrer assédio? Porque ou é bonita e só vale por conta disso ou é feia, fora dos padrões, e não serve justamente por conta disso. Não existe competência que transpasse aparência física. Não existe cérebro, carreira ou profissionalismo que substitua a ideia de que somos manequins que servem tão somente ao "apetite", à falta de noção e ao ego masculino, porque "homem é assim mesmo", "é do instinto". Por isso precisamos constantemente nos provar. Por isso precisamos constantemente ser perfeitas, e, como no caso da Carol, mesmo assim estamos passíveis de que ignorem completamente nossa competência.

Para o homem, há sempre uma desculpa: "foi só um elogio". Para a mulher, há sempre uma condenação: "para de drama, vadia mimizenta".

Mariana Godoy também passou por um episódio do tipo com Crivella, que, depois de um debate sobre política, achou de bom tom dizer que a audiência elevada deu-se por conta da beleza das apresentadora. Ela acenou um tchauzinho de miss, quase paralisada, estática, como um perfeito manequim de vitrine. Porque é assim que nos querem: manequins. Manequim não pensa. Manequim não fala. Manequim não estuda, não frequenta universidade, não se forma. Manequim não trabalha, não recebe salário. Manequim só serve para agradar aos olhos. 


Basta.
Há muito tempo tenho em mente a ideia de iniciar uma série de textos em defesa dos contos de fadas. Explico. Sim, eu sei. Contos de fadas têm muitas coisas problemáticas, como, por exemplo, o fato de que só há pouquíssimo tempo começaram a fazer filmes de princesas negras (que não são contos de fadas, mas aguentem comigo e sigam a lógica aqui) e eu sigo aguardando uma princesa gorda ou minimamente não-magra. Mas contos de fadas são muito importantes. A gente só precisa pegar a responsabilidade nas mãos e promover um giro de perspectiva.

A Bela e a Fera sempre foi meu conto de fadas, dentre os que envolvem princesas, preferido. E, não vou negar, o que me encantava quando era pequenininha era, sim, o príncipe e coisa e tal. Porque eu não nasci feminista. Eu não nasci desconstruída e completa na minha auto-crítica. Até hoje escorrego (e escorrego feio). Só que para além do príncipe, o que me encantava na história toda era o amor que proporcionou algo muito bonito, a transformação de uma fera horrível (e aqui, leia-se, horrível de tudo: vaidosa, arrogante, assustadora, má) em um ser humano capaz de compreender e repassar sentimentos puros, bonitos, gentis. 

Sim, eu sei: "ai, mas isso pode transmitir a ideia de que o amor suporta tudo". Vamos com calma, porque tem mais coisa por trás. A Bela, desde o início, é bem diferente de uma princesa que simplesmente assiste a vida passar pelos olhos. Bela é uma menina inteligente, gosta de ler. Passa horas na biblioteca e sente que não pertence àquela vila, quer sair dali, viver a vida em outro canto. Recusa o pedido de casamento do cara mais bonitão do pedaço, porque sabe que ele é primitivo, vez que ele é daqueles que diz que mulher não pode ler, pois começa a ter "ideias" (uma mulher que pensa: que ser perigoso e hostil). Bela vai até o castelo para encontrar o pai e se oferece para ficar no lugar dele, num ato de extrema coragem e empatia, já que este estava doente e muito velhinho. 

Bela, portanto, não é um ser frágil, apático, que é "capturado" pela Fera e segue a vida dessa forma. Pelo contrário, ela peita seu "algoz", desobedecendo normas e regras impostas sobre sua vida no castelo. Aliás, é justamente desobedecendo regras que ela consegue se aproximar da Fera e conquistar sua confiança. Colocar Bela num papel de vítima é desconhecer a história ou, num ato de má fé, dar continuidade ao patriarcado, aquele mesmo que estabelece que mulher não sabe tomar as rédeas da própria vida e está sentenciada a ser, sempre, uma vítima. Está na hora de reconhecer que, em maior ou menor escala, todas nós temos algo de heróico em nós. Todas nós somos heroínas, não princesas frágeis.

Quando eu tiver uma filha, é sobre isso que irei falar quando falar d'A Bela e a Fera: sobre uma menina pra lá de foda que, com suas peculiaridades, conseguiu vencer o que parecia horrível e, através do amor, realizar uma transformação em larga escala. Relacionamento abusivo a minha filha vai compreender mais tarde, não na primeira infância. Na primeira infância eu quero que ela seja capaz de perceber as mensagens positivas d'A Bela e a Fera. E se ela quiser ver A Bela e a Fera como um relacionamento abusivo mais pra frente, tudo bem. Meu ponto neste texto é que uma criança não deveria entender sobre relacionamento abusivo, e se os contos de fadas seguem, invariavelmente, querendo nós ou não, sendo grande fonte de inspiração e ensinamentos pra primeira infância das garotas, que tal a gente só pegar a responsabilidade pra nós, feministas adultas, e reverter a perspectiva? Falemos, pois, da heroína que há em Bela. Falemos, pois, de todas nós.


Para o início deste texto, proponho um ponto de partida que vez ou outra causa polêmicas: “não se nasce mulher, torna-se uma”. Essa célebre e enfática constatação de Simone de Beauavoir não raramente é distorcida e mal interpretada, gerando um quiproquó mesmo entre as feministas. No entanto, no meu dia a dia enquanto mulher, eu apenas consigo ratificar essa afirmação da filósofa francesa. Tornamo-nos mulheres: isso é ensinado, normatizado, vigiado e punido. Sem folga, sem descanso e sem recreio.

“Fecha essas pernas”; “parece um moleque desse jeito”; “tira a mão daí, menina não coloca a mão aí”; “uma menina linda dessa falando palavrão”; “uma moça linda dessa que não se dá ao respeito”; “olha o tamanho dessa saia”; “olha o tamanho desse decote”; “mas um short desse tamanho pra usar em um lugar cheio de homem?”; “tem que usar sutiã”; “mas cropped com a barriga desse tamanho?”; “a casa bagunçada desse jeito, nem parece que tem mulher”.

Escrevi o parágrafo anterior em 40 segundos. Cronometrados. Porque não precisei pensar. Eu só digitei o que ouvi a vida inteira. E se você é mulher, provavelmente fez uma leitura bem rápida dessas frases todas. O cotidiano nos ensinou isso. A sociedade machista, estruturada no sistema patriarcal, bombardeia esses ensinamentos pra gente de diversas formas. É assédio na rua, moralismo na família, coerção e culpabilização na escola e no trabalho. O lugar da mulher sempre foi o lugar decorativo, o lugar acessório, o lugar dos bastidores. Ninguém escreveu isso num livro didático nem nos levou a uma escola específica pra isso.

 Mas aí inventaram a Escola de Princesas. Talvez porque quando um sistema está tão bem aparelhado, sólido e seguro, sequer haja problema em expô-lo. A Escola de Princesas recebe meninas de quatro a 15 anos para ensiná-las regras de etiqueta, arrumação da casa, automaquiagem e o comportamento adequado em um relacionamento amoroso. O mote da escola: “o sonho de toda menina é tornar-se uma princesa”.
Imagem da Escola de Princesas em Uberlândia (MG)
De acordo com a antropóloga Michele Escoura, o ideal de princesa na infância feminina dissemina um estereótipo de feminilidade, reforçando desde a infância o roteiro a ser seguido na busca pela felicidade da mulher. Dessa forma, quando a Escola de Princesas define temáticas de “arrumação da casa” e “culinária” como atribuições femininas, ela corrobora a alegação machista de que essas são tarefas que cabem exclusivamente às mulheres.

A divisão sexista vem, novamente, impor às mulheres o peso sectário da generalização. Essa frase pode parecer contraditória, mas defendo que ela faça sentido: o patriarcado trabalha para nos fazer mulheres cis gênero, heterossexuais, de preferência brancas, magras, jovens, silenciosas, discretas, embelezadas e satisfeitas com essa condição. Eles nos jogam ao lado B, nos determinam o espaço limitado do “segundo sexo”, do “complemento do homem”, da “retirada da costela para caminhar ao lado” e ainda impõem que sejamos todas iguais, dentro desse padrão.

A milionária herdeira Silvia Abravanel, responsável pela franquia da Escola de Princesas em São Paulo, afirma que o objetivo da instituição é “promover o resgate de valores morais”. O aparelhamento patriarcal defende que já fomos longe demais, afinal, por mais direitos que as mulheres conquistem, os homens e as mulheres são diferentes, sim e ponto final! E nessa diferença, a lógica imposta pretende manter a mulher voltada ao espaço doméstico, seguramente contida; enquanto o homem ocupa o espaço público e exerce os papéis de dominação.

A Escola de Princesas promete inovação e resgate de valores ao dizer que as mulheres precisam se guardar. Eu as digo, com categoria, que estão no mínimo muito mal informadas. Passamos a História inteira nos guardando e sendo guardadas. “Por trás de um grande homem sempre existe uma grande mulher” e com essa afirmação eles querem nos fazer crer que estão nos exaltando. Mas não: mais uma vez, estamos sendo guardadas. O nosso lugar é o por trás. É o lugar do recato, da decoração, dos bastidores, do acessório, do degrau.

O movimento necessário é o desaprincesamento, porque para o posto decorativo do castelo, todas nós, mulheres ocidentais, já fomos criadas. O movimento urgente é a desconstrução disso: existem diversas formas de ser mulher. Essas formas são complexas, múltiplas e é bom que sejam assim mesmo, porque só na pluralidade podemos pensar a igualdade. O homem, desbravador e dominador, desde menino aprende as possibilidades de ganhar o mundo. Carrinhos e liberdade; soldados e conquistas; videogames e estratégias, Lego e lógicas. As mulheres, assujeitadas, aprendem a aceitar e esperar: o príncipe que a resgate da torre, a fada madrinha que nos faça bela, as panelinhas que contenham o resultado do trabalho e a boneca que enchemos de ternura.

Mulher que ousa falar alto, que ousa protagonizar suas próprias lutas, que ousa questionar seu lugar socialmente construído de princesa é taxada de louca, radical, histérica e panfletária. O que deixa de ter lugar, uma hora também fica sem nomenclatura. Descemos da torre do castelo sem a ajuda de príncipe nenhum, nós por nós mesmas – como sempre foi, afinal. Eles estão assustados. Aos poucos, vão descobrindo que princesa é muito pouco. Nós somos guerreiras.

Sigamos juntas <3
"As prisões representam perda de liberdade, literalmente e simbolicamente. (...) Tire tudo o que faz deles, eles. Você vai ver, nós estamos tentando entender como uma instituição afeta o comportamento individual."
Filme: O Experimento de Stanford (2015)


Antes de começar esse texto, quero fazer algumas observações importantes: a primeira é que, muito do que vou escrever aqui, são opiniões próprias. Claro, são opiniões embasadas em coisas que já li, que já ouvi, que já estudei, porque não sou de espalhar opiniões sem fundamento. Em segundo lugar, não acredito que seja possível escrever tudo o que penso e levantar todos os pontos a respeito de um assunto tão complexo, mas vou falar sobre o que mais me deixa aflita — há muito tempo (pretendo, assim, citar várias referências/indicações que completem o que aqui for brevemente citado). Dito isso, sigamos.

O sistema prisional é algo que me angustia há tempos. Quando eu era menor, achava que a prisão era a solução de todos os problemas e me sentia aliviada em pensar que as “pessoas más” estavam atrás das grades. Ainda bem que a gente cresce, a gente estuda, a gente encontra pessoas aqui e ali e essas pessoas deixam em nós muito do que elas são e do que elas sabem — e com isso nos transformam, juntamente com as nossas opiniões e com a nossa visão de mundo.

Até o meu segundo ano da faculdade, eu ainda via as coisas mais ou menos dessa mesma maneira — mas acredito ser impossível cursar psicologia e sair de lá do mesmo jeito que entrou (se for o seu caso, repense). No meu terceiro semestre tive aula com uma professora incrível e esse foi o marco de uma antiga Mariana para uma nova Mariana. Obviamente, eu não passei magicamente a enxergar tudo de outra forma porque isso simplesmente não acontece, mas foi como uma picadinha do questionamento. Lembro bem que foi nessa aula, com essa professora, que comecei a questionar muitas e muitas coisas e depois disso, eu não parei mais.

Como se pode imaginar, o sistema prisional foi uma dessas coisas. Muito antes disso, eu já tinha um interesse imenso pela criminalidade — inclusive, entrei na faculdade de psicologia justamente por conta desse interesse. Eu sempre quis entender o que leva uma pessoa a cometer um crime, principalmente um crime contra a vida de alguém. Quando escutamos conversas aleatórias por aí, parece tudo muito simples: “nós” somos “bons”, “eles” são “pessoas más” e é isso. Nós nunca poderíamos estar ali, pois somos “pessoas de bem”.

“Tudo se resume à uma questão de caráter”, eles dizem.

Tal discurso é o favorito dos conservadores — principalmente dos políticos. Acho que não preciso entrar em méritos de corrupção, certo? Também não preciso falar sobre a implicação de se roubar dinheiro público — “não é tirar a vida de alguém”, eles podem dizer. Não é? Tirar o dinheiro que deveria estar na saúde, por exemplo, e implica diversas mortes por falta de assistência, definitivamente, é tirar a vida de vários alguéns. Até aqui eu conto com o fato de que vocês consigam ligar os pontos do raciocínio por conta própria.

Agora, quem já visitou um presídio? Ou melhor, de forma mais realista: quem já assistiu qualquer documentário que seja sobre como funciona um presídio? (referências 1, 2, 3 e 4) Tal conhecimento veio no meu quarto semestre. Em uma matéria sobre ética, fiz uma apresentação inteira a respeito do sistema prisional e as coisas com as quais me deparei durante a pesquisa de conteúdo mudaram, definitivamente, alguma coisa dentro de mim — foi aqui que descobri, de verdade, o que eram os “Direitos Humanos”.

A situação de grande parte dos nossos presídios ultrapassa o que a palavra “absurda” pode representar. Presos são tratados como animais, como pessoas sem direitos, como verdadeiros lixos. Os presídios estão superlotados. Segundo o relatório do Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen), referentes a dezembro de 2014 (referência 5), a população carcerária brasileira é a quarta maior do mundo e é composta, em sua grande maioria, por jovens, negros e com baixa escolaridade. Mulheres, em presídios femininos, são obrigadas a usar miolo de pão como absorvente interno (referência 6). O crime que mais leva os indivíduos à cadeia é, segundo o relatório, o tráfico de drogas (28%), seguido de roubo (25%) e furto (13%).


Todas essas informações nos ajudam a levantar infinitos questionamentos, podendo começar por: quem são as pessoas que estão dentro das cadeias? Constantemente, juntamente com o conceito de que o mundo é dividido entre os “bons” e os “maus”, também nos é transmitida a ideia de que o mundo é um só e é visto exatamente da mesma maneira por todos nós. As leis existem, portanto devem ser cumpridas: todos sabem disso e todos devem respeitar. Mas o mundo é, na verdade, uma infinidade de visões subjetivas. O único questionamento que acredito ser necessário aqui é: você realmente espera que uma pessoa pobre, a qual o Estado não se importa com, largada a própria capacidade de sobrevivência, irá olhar para as leis da mesma forma que nós, que não passamos fome, que temos o mínimo de respeito dentro da sociedade? Realmente, uma pessoa marginalizada consegue imaginar que ela deve alguma coisa a um Estado e a uma sociedade que nada fazem por ela?

Eu acredito que a resposta seja muito clara.

Antes que alguém consiga pensar, já adianto: existem exceções, como em absolutamente tudo nessa vida. Nunca, absolutamente nunca, algo que se refira ao ser humano será contemplado com uma porcentagem de “100%”. Mas exceções, como obviamente a própria palavra diz, não são regras. E não é à toa, não é por acaso, que a maioria da população carcerária é negra e de baixa escolaridade.

Outra questão importantíssima diz respeito aos 28% relacionados ao tráfico de drogas. Nós vivemos uma luta falida contra as drogas desde que ela se iniciou e isso é extremamente claro. Já passou da hora de revermos nossas políticas proibicionistas, de pensarmos em novas políticas de drogas, pois a única coisa que essa guerra nos trouxe e segue nos trazendo é exatamente aquilo que todas as guerras trazem: mortes e perdas de todas as formas (referência 7). A guerra às drogas é — e já nasceu assim — falida. No Brasil, devemos pensar no problema do tráfico, que mata e retira direitos de milhares de pessoas por ano. Não podemos nos dar ao luxo de pensar as drogas na perspectiva do usuário. Devemos pensar no tráfico. E para acabar com o tráfico, devemos legalizar as drogas. É uma fórmula óbvia.

Acredito ser importante explicar aqui que o sistema penitenciário é falido como um todo. Explico: não há impunidade, há punição seletiva – prendemos, mas não prendemos todos, prendemos alguns (os que são, claramente, maioria nas cadeias); não temos o menor intuito de ressocialização – o que nós queremos é vingança. E esse ponto é extremamente relevante. O sistema de justiça criminal, como se mostra, é apenas mais uma ferramenta que serve puramente ao capitalismo, como mais uma das molas propulsoras: é preciso identificar um inimigo e excluir do convívio social aquele que não serve às demandas do sistema.

O que pretendemos com a prisão? Nós queremos punir porque nós queremos nos vingar. Somos seres humanos e seres humanos são compostos por emoções. Sentimos raiva, ficamos indignados, com nojo, com medo. É muito difícil pedir para que as pessoas sejam racionais quando falamos sobre crimes. “E se fosse você? Sua família? Queria ver! Tá com pena leva pra casa”, eles dizem. Todas essas situações citadas remetem exatamente ao excesso de emoções, a momentos que tiram a nossa racionalidade. Respondo: se fosse comigo, se eu fosse estuprada, por exemplo, eu com certeza iria querer a morte do estuprador.

Mas quem faz as leis, quem as aplica, quem desenvolve políticas públicas, o Estado, todas as essas pessoas elas não podem agir de acordo com suas emoções. Não podemos pensar em atitudes e medidas eficazes se pensarmos através de nossas emoções.

A prisão não é eficaz. Ponto final. Se fosse, nosso país teria um índice extremamente baixo de criminalidade, visto que somos o país com a quarta maior população carcerária do mundo. Quando apontamos para o presídio como solução, quando exigimos maiores penas para uma pessoa, nós não estamos pensando racionalmente nas consequências e no “depois”. E quando o sujeito voltar para a sociedade? Porque a pena dele vai acabar, em algum momento. E ele voltará para uma sociedade que o excluí, de novo, de novo, de novo. Voltará para essa sociedade depois de ter passado anos dentro de um local que destruiu sua subjetividade e que o maltratou infinitas vezes, de todas as formas possíveis (vejam os documentários, vejam o filme que eu citei, porque infelizmente se eu for descrever cada um deles aqui esse texto não terá fim jamais).

É urgente a destruição dessa lógica punitivista. É urgente olharmos para esse sistema completamente falho com a criticidade que ele merece. Sempre me questionam: o que você sugere, então? A longo prazo e a melhor solução possível: educação de base de qualidade, juntamente com redistribuição de renda. Porém, sabemos que esse é, ainda, infelizmente, um sonho distante – principalmente em termos de “Escola Sem Partido”. Precisamos olhar para nossas políticas públicas, para as nossas políticas sociais.

Nós não somos pessoas de bem; somos pessoas. Eles não pessoas más; são pessoas. Não sou isenta de erros – meus, da polícia ou da justiça (referência 8 e 9). Você também não é. Precisamos nos tirar dos pedestais que nos colocam como incapazes de estar no lugar do outro, um dia. E precisamos trabalhar aquilo que é conhecido como “empatia”, que permite que eu me coloque no lugar do outro, mesmo que eu não tenha estado, necessariamente, por lá.

REFERÊNCIAS/INDICAÇÕES:

Citadas no texto:
  1. Documentário: O Prisioneiro Da Grade De Ferro https://youtu.be/2Oap5lUSp6w
  2. Sistema penitenciário brasileiro (trechos de matéria da Record) https://www.youtube.com/watch?v=vbD3OaOrcp8
  3. Documentário: A Casa dos Mortos - Manicomios Judiciários https://www.youtube.com/watch?v=noZXWFxdtNI
  4. Filme: O Experimento de Stanford (2015)
  5.  http://www.justica.gov.br/noticias/populacao-carceraria-brasileira-chega-a-mais-de-622-mil-detentos
  6. Livro: Presos que Menstruam - Nana Queiroz
  7. Documentário: Quebrando o Tabu (disponível no Netflix)
  8. Documentário: Medo do 13 (disponível no Netflix)
  9. Documentário: Central Park Five (2012)


Outras:
  • "Prisões, Manicômios e Conventos" – livro de Erving Goffmann
  • Black Mirror: episódio 2x02 “White Bear”
  • "Introdução crítica à criminologia brasileira" — livro de Vera Malaguti Batista
  • "Vigiar e punir" — livro de Michel Foucault



Noite passada, a internet viveu uma histeria coletiva por conta da hashtag (que continua em primeiro lugar nos trends mundiais) #savemarinajoyce. Marina Joyce é uma youtuber britânica que, nos últimos meses, começou a apresentar comportamentos estranhos em seus vídeos. No mais recente deles, é possível observar a menina extremamente assustada, dedos que por vezes mostram onde ela deve se posicionar, machucados por seu corpo e, segundo alguns, um pedido de socorro ("help me") em forma de sussurro. Alguns dizem que Marina foi sequestrada e está sofrendo abusos por parte do namorado e que este tem drogado a menina constantemente. Os amigos de Marina afirmam que ela tem um problema com drogas e que inclusive já ofereceram ajuda, mas ela não aceitou. Há quem ache que a menina apresenta um quadro de esquizofrenia. 



A polícia foi chamada ao local e afirmou que a menina parecia estar bem, sem qualquer risco aparente. Na manhã de hoje, ela fez uma transmissão ao vivo, na qual pareceu perturbada, mas afirmou, por diversas vezes, que está bem. Houve quem respondesse: "Não, você não está bem", tendo a menina reafirmado que, sim, está bem — podemos, por um minuto, pensar no quão frustrante deve ser, independente do problema existente, ter completos desconhecidos questionando nossa sanidade e nosso bem estar? Podemos falar sobre as possíveis — e prováveis! — implicações psicológicas disso? Existem formas de ajudar alguém que está passando por algum problema. Essa, ao meu ver, não é a melhor delas.

Em resumo, é isso. Particularmente, não acho que a menina esteja bem. Creio que é possível que ela esteja mesmo com algum problema. Mas, no final do dia, isso não diz respeito a mim. E não é disso que vim falar. Na verdade, vim tocar numa ferida aberta nas veias do mundo conectado. Uma ferida bem grande e fortemente danosa: o confisco de conflitos extremamente particulares por uma massa de desconhecidos que julgam saber todos os detalhes de qualquer história a ponto de, sim, julgar e condenar qualquer boato que seja. 

Somos seres que se guiam pelas emoções, isso é fato. Em situações de medo ou tristeza, não sabemos agir racionalmente. Eu fiquei transtornada com a história toda, tive crise de pânico e dormi por um total de duas horas nesta noite. Vi muitas notícias sem qualquer embasamento: ela morreu; ela foi encontrada num rio; ela é refém do Estado Islâmico (!); ela está morta e os vídeos são antigos, etc. Vi muita gente acreditando nessas histórias. Vi gente pegando fotos aleatórias do namorado da menina, supostamente com machucados nas mãos, e afirmando cabalmente que ele é o responsável, que deve morrer e deixar a menina em paz. 

Sim, somos seres que se guiam pelas emoções. Mas precisamos conversar sobre os limites necessários em casos como esses. 

Eu não conheço o namorado de Marina Joyce. Eu não conheço Marina Joyce. Eu não sei o que se passa, só vi vídeos de uma menina que aparentemente não está em seu estado normal. Não cabe a mim dizer qualquer coisa, julgar qualquer pessoa e, principalmente: não cabe a mim afirmar nada sobre o caso. Isso fica por conta de Marina, seus amigos, seu namorado, seus familiares e, em casos extremos, aqueles que moram por perto. Só. 


Aliás, isso me lembra um outro caso que minhas companheiras feministas adoram citar: Mallu Magalhães e Marcelo Camelo. Não é raro entrar em coletivos feministas e dar de cara com mulheres afirmando, sem deixar qualquer espaço pra debate, que Marcelo é pedófilo e abusivo em seu relacionamento com Mallu. De fato, a diferença de idade é gritante. De fato, é nosso papel falar sobre diferenças de idade e possíveis consequências. Mas entre tratar no plano das ideias até julgar e condenar indivíduos sobre os quais não sabemos mais do que o que aparentemente interessa à mídia e afins existe uma enorme diferença, que reside na individualização de cada relacionamento. Estamos falando de vidas, de seres humanos. Mallu Magalhães sofre de depressão e já pediu, por diversas vezes, para que parem com a ideia de apontar o dedo para seu casamento. Ela prefere evitar acessar a internet do que ver certos comentários. Ainda assim, não basta. Para a era da informática, não importam subjetividades, não existe buraco que seja mais embaixo. Existem verdades universais para problemas individuais e fim de papo. Abusador tem mais é que morrer e nós não queremos sequer debater isso. 

Pautar decisões e opiniões em emoções não pode e não deve ser aceito como normal, nunca. Se assim fosse, logo teríamos a volta da pena de morte: "Imagina se fosse com você ou sua família!". Se fosse comigo ou minha família, eu adoraria que a pessoa morresse. Mas imagine o caos que seria instaurado caso o pensamento predominante fosse esse. 

Darei um exemplo para ilustrar o meu raciocínio: em 2014, uma mulher foi linchada até a morte no Guarujá por causa de um boato na internet, que dizia que ela era uma bruxa e sequestrava crianças para rituais. Um retrato falado de uma mulher, parecida com a moça em questão, circulou. Foi o suficiente pra população se revoltar e matar a moça da forma mais cruel possível, com ódio nos olhos e nas mãos. Depois, descobriu-se que o retrato falado atribuído a Fabiane nem sequer era da região do Guarujá, mas do Rio de Janeiro, bem longe dali. Fabiane deixou uma família que muito provavelmente jamais conseguirá voltar a viver em paz.

O que eu quero pedir, ao fim deste texto, é que busquemos ter mais calma ao lidar com vidas individuais na era da super informação. Não questiono as boas intenções por trás da histeria — eu acredito que as pessoas podem ser boas e queiram muito ajudar. Mas mesmo ajudar pode ser perigoso quando não se sabe do que se trata. 

Falando especificamente sobre relacionamentos abusivos, sim, eles existem e estão por todas as partes. Devemos falar sobre eles. Devemos discutir, conversar sobre. Mas cada relacionamento é um. A melhor forma de lidar com algo que pensamos ser abusivo é, caso sejamos próximos das pessoas em questão, sentar pra dialogar, oferecer ajuda, cara a cara. Pode nem ser o que aparenta. Pode não ser nada. E causar alarde sem embasamento pode, em determinados casos, ser o verdadeiro causador de um problema maior. 
Deparei-me com a expressão olhar observador masculino pela primeira vez na pesquisa que fiz como TCC, com viés feminista. Fiquei estarrecida com a expressão, porque tive aquela sensação de “uau, sinto isso todos os dias, mas nunca soube que tinha um nome e de repente esse nome soa perfeito”. No contexto da minha pesquisa, que abordava aspectos midiáticos da representação juvenil feminina, essa expressão dava conta de explicar exatamente como se forma o tal universo feminino que fala de maquiagens, moda e como conquistar um cara. Quem determinou que isso é universo feminino? Os homens, claro!

            “O prestígio de que goza aos olhos dos homens, é dele que os recebe; eles se ajoelham diante do Outro, adoram a Deusa-Mãe. Mas, por poderosa que seja, é através de noções criadas pela consciência masculina que ela é apreendida”. É com esse belíssimo tapa que Beauvoir nos ensina um bocado sobre como é viver sob o parâmetro de outro, ser observada, julgada e regulamentada por normas e pactos sociais que versam sobre nós mas nunca foram feitos por nós. O olhar observador masculino conjuga dois vetores bastante problemáticos e opressores: incute em nós mesmas a prerrogativa de ser vista por um homem e carregar o peso de depender da aprovação dele e, além disso, abarca todas as formas de representação sob o jugo desse mesmo olhar. Escritores, jornalistas, cineastas, fotógrafos, diretores de arte, deputados, senadores, advogados, policiais, médicos...todo um sistema que produz verdades, discursos e estabelece normas de acordo com o olhar masculino.


            Relembrando a citação de Beauvoir, até mesmo os prestígios que recebemos foram concedidos por eles, visto que são os constituintes da hegemonia. Por isso é tão difícil ocupar o espaço do empoderamento. Qual lugar a mulher poderia ter no cinema, por exemplo, se atua diante de câmeras manuseadas por homens, é dirigida por um homem e contracena tendo que atender às expectativas de amor romântico estabelecida numa sociedade patriarcal? Como pensar o pornô feminino se o mundo gira em torno do falo, do gozo que só tem valor quando libera um material visível e trata a mulher como objeto passivo a serviço do prazer?

            Observando esses aspectos, nos damos conta de que o olhar observador masculino é também o que constitui os padrões de beleza e comportamento que cotidianamente nos oprimem tanto, nas menores coisas. Quando manifestamos nosso desconforto com a não depilação, quando ainda enfrentamos preconceito ao afirmar que não sonhamos em ter filhos e quando recusamos a maquiagem “adequada à ocasião” para irmos de cara limpa ou com a make que nos der na telha, é contra padrões estabelecidos por homens que estamos nos levantando. E quando eu digo isso, por favor, não nos deixemos convencer pelos argumentos de “nem todo homem”, naquele estilo “o meu namorado me chupa até quando não estou depiladinha”. Não estou falando aqui de nenhuma situação ou relacionamento individual. Estou falando de opressão estrutural.

            Se a ordem social na qual estamos inseridas foi construída por homens e se foram esses homens que nos estabeleceram como “o Outro”, é a eles que pertence o olhar dominante. Como seres sociais e políticos, nós construímos nossa visão sobre nós mesmos a partir do que nos contam e do que vivenciamos. É mais ou menos aquela história: se os pais passam anos xingando e depreciando os filhos, eles crescem acreditando que são fracassados e incapazes. Compreendem? É isso que os homens fizeram conosco.

            Não se trata simplesmente de dar as costas, de negar qualquer convívio com os homens por mais exaustivo que isso seja (e sabemos que é mesmo, migas, eu as entendo). Porque já está dentro de nós! É olhar observador masculino. Quando eu, você, nossas irmãs, primas e mães nos olhamos no espelho, enxergamos ali milhares de defeitos que foram convencionados como defeitos porque homens o chamaram assim. É importante lembrar disso, o tempo todo.

            A possibilidade de desconstrução, diária e gradual, pauta-se muito no questionamento do nosso lugar, considerando a existência desse olhar. É lembrando disso que devemos nos fortalecer e nos encorajar a ocupar os espaços e ter a ousadia de produzir nossos próprios discursos, ter o senso crítico e a sororidade de debater entre as mulheres e podermos dizer: é assim que a gente vê, é assim que a gente sente. Por isso, somos nós que vamos escrever, falar, filmar e produzir sobre nós.

            Acreditamos na luta pelo nosso olhar. Por um olhar mais inclusivo e mais justo conosco. Sigamos juntas <3 
A discussão sobre as formas de reações, as estratégias que tomamos, tanto no campo individual, como no coletivo, para proteger os nossos corpos e reafirmar nossa existência tem sido muito questionada e eu tenho muito refletido sobre a militância e a resistência, tanto LGBT quanto feminista, por serem essas as que mais me tocam subjetivamente. Graças a dissertação e ao GEPSs - Grupo de Estudos e Pesquisa , refletir sobre resistências e o cuidado de si tem sido uma constância teórica que se mescla e muito com a prática cotidiana, sobre as ações e relações diárias.

Falar que nossas estratégias segregam quem nos oprime é algo constantemente reproduzido. E cá entre nós, isso me intriga e cria paradoxos internos que são perturbadores. Mas é no incômodo que avançamos. Essa semana, em especial, o termo irônico e mitológico urbano “heterofobia” foi um desses causadores de incômodos produtivos, mas semanas atrás a reação ~violenta~ dos oprimidos também muito me inquietou. Será que ao reagirmos as estruturas de opressões estamos também oprimindo? Será que ao reafirmar nossos locais de convívio de minorias estamos segregando? Será que estamos reproduzindo o mesmo escalonamento de opressões?


Ainda que eu me questione muito sobre essas novas práticas, a frase “não confunda a reação do oprimido com a violência do opressor” é uma máxima em meu interior, ainda que eu a questione continuamente, que faz real sentido. Chego a conclusões - também inconclusivas, porque o pensar é a incerteza e o questionamento constante - de que a resistência é o oposto da reação, pois quando reagimos damos a resposta àquilo que o poder quer de nós. Contudo, quando resistimos criamos possibilidades de [r]existência de nossos corpos, por meio de forças inéditas, por meio de afirmações de existência, por meio do afeto acolhedor que é a percepção da não solidão dos nossos corpos em meio ao sofrimento. Resistir, portanto, é também criar.

Sem querer ser aqui academicista, mas trazendo a utilização da teoria para nossas práticas de vida, temos que para Foucault, a resistência é uma ação da força que se subtrai das estratégias efetuadas pelas relações de forças do campo do poder, permitindo à esta força entrar em relação com outras forças oriundas de um lado de fora do poder (FOUCAULT,1988). Forças do devir, da mudança, que apontam para o novo e engendram possibilidades de vida. Resistir é criar, para além das estratégias de poder, um tempo novo, obviamente. Mas ao resistir criamos possibilidade de vida e isso é para mim, talvez, um dos fatos mais lindos da vida.

Em suma, tenhamos em mente que ao criarmos novas possibilidades de resistências, nossos guetos de afirmação de existência, nossos campos de reconhecimento, ainda que nos corpos enlutados e massacrados, somos criadores de novas possibilidades e de novas resistências. A luta é nosso verbo mais frequente e nossa maior possibilidade de criar novos rumos!
A cada segundo, morremos pelo menos uma vez. 

Um. Dois. Cinquenta e três. Ontem, morremos mais de cinquenta vezes. Assim, num piscar de olhos, mais de cinquenta. 

A verdade é que a comunidade LGBT é assassinada todo o tempo. De maneiras diferentes, de todos os lados. Outra verdade é que pode ser que o sangue esteja em suas mãos também. 

O que aconteceu na boate Pulse, em Orlando, não foi um ato terrorista, muito menos feito por um monstro. Foi um homem. Nascido e criado pelo patriarcado e suas raízes que, apesar de apresentarem sinais de ruína nos últimos tempos, ainda são muito presentes em nossa realidade. O fundamentalismo religioso, de fato, é um ato de terror. Mas não é somente um ato de terror. 

Não utilizaremos, pelo menos aqui, de eufemismos para mascarar o que grande parte das pessoas não quer ouvir. Ainda que a surdez seletiva esteja instaurada nas bases da sociedade, a gente grita. Juntos. Como um só. 

Não é terror. 

Não é só terror. 

Quantas vezes você, aos treze anos de idade, conversou com algum Deus pedindo pra ele te fazer diferente? Quantas vezes você ignorou diversos sinais porque sabia que seria difícil demais? Quantas vezes te olharam diferente por você segurar a mão de alguém em público ou te disseram que você deveria “pensar nas crianças que estavam ali”? 

Quantas vezes? 

Quantas vezes você disse que ela deveria colocar um vestidinho ou que ele deveria não ser tão afeminado? Quantas vezes você não deixou seu filho dançar uma música porque aquilo “é coisa de menina”? Quantas vezes você disse que “não tem preconceito e até tem amigos que são, mas...”? Quantas vezes? Quantas vezes hoje (e só hoje) o sangue dessas pessoas, de nossas pessoas, esteve indiretamente em suas mãos? 

E nós? Só continuamos a morrer enquanto uma espiral de ignorância e desrespeito paira como uma nuvem negra sob nossas cabeças. Mas não morreremos em silêncio. 

Vocês ainda vão ouvir.


Desde o ocorrido no Rio de Janeiro (não acho que seja necessário entrar em detalhes), a cultura do estupro veio à tona. Não para nós: falamos disso há muito tempo em coletivos e em espaços sociais, acadêmicos, dentre outros. Mas agora é a hora do país inteiro falar sobre isso ou, ao menos, sentir um pouquinho de incômodo sendo obrigado a ver todo mundo falar sobre isso. Acontece que a expressão "cultura do estupro" (surgida em meados da década de 70, não ontem, como alguns parecem pensar), ao contrário do que Felicianos dizem por aí, existe em larga escala na realidade brasileira, e os dados não nos deixam mentir: segundo o IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), 78% dos brasileiros acham que o que acontece entre um casal, em casa, não interessa aos outros; 63% pensam que casos de violência dentro de casa devem ser discutidos somente entre os membros da família. Nada de novo sob o front, já que ainda existem juristas que acreditam no chamado "débito conjugal", entendido como o dever mútuo de satisfação sexual adquirido com o instituto do matrimônio: acredite, por mais que essa ideia a mim soe medieval — o que, de fato, é —, já ouvi de professores e colegas que fazer sexo com a esposa sem seu total consentimento não é algo errado. 

Ademais, ainda segundo o IPEA, 59% dos brasileiros concordam que existem mulheres para casar e mulheres para a cama; 58% acreditam que, se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros. Parece-me claro que vivemos numa cultura do estupro, em que existe uma naturalização da violência sexual, sendo que esta se faz presente em todos os lugares, desde a escolinha de infância (com frases como: "Ele te maltrata porque gosta de você" e "Se ela está te ignorando é porque certamente quer te dar um beijo") até as novelas dos horários nobres. Vivemos numa cultura do estupro pois as mulheres (maiores vítimas, em estatística, de violência sexual; contudo, não somente elas são as vítimas, visto que existem, sim, diversos casos de estupro masculino) são ensinadas a se comportar de forma a não serem estupradas, enquanto homens não são ensinados a NÃO estuprar — o que é certo e deveria ser o óbvio.

Contudo, continua não causando espanto, ao menos a mim, que existam Felicianos e, com eles, tantas Marias, Carlas, Eduardas, Marianas, etc., afirmando categoricamente que a cultura do estupro não existe e não passa de mimimi feminista. Sobre isso, Pierre Bourdieu, sociólogo francês, falou, brilhantemente, em 1998: 

"O efeito da dominação simbólica (seja ela de etnia, de gênero, de cultura, de língua etc.) se exerce não na lógica pura das consciências cognoscentes, mas através dos esquemas de percepção, de avaliação e de ação que são constitutivos dos habitus e que fundamentam, aquém das decisões da consciência e dos controles da vontade, uma relação de conhecimento profundamente obscura a ela mesma. Assim, a lógica paradoxal da dominação masculina e da submissão feminina, que se pode dizer ser, ao mesmo tempo e sem contradição, espontânea e extorquida, só pode ser compreendida se nos mantivermos atentos aos efeitos duradouros que a ordem social exerce sobre as mulheres (e os homens), ou seja, às disposições espontaneamente harmonizadas com essa ordem que as impõe."
(A Dominação Masculina, edição de 2014, p. 59; grifos meus)

Pois bem. Com todas essas breves (ou nem tanto assim) ponderações em mente, passemos aos seriados que amamos. Há algum tempo, a ideia do estupro como algo que molda toda a construção das personagens tem aparecido em diversos seriados, entre eles House of Cards, Scandal, The Americans, Game of Thrones, Jessica Jones e Downtown Abbey. Enquanto alguns são partidários da corrente não-deveríamos-ter-estupros-em-seriados, eu tenho uma visão um tanto quanto diversa. Estupros em seriados são necessários, pois existem estupros a cada minuto no mundo inteiro. Existem estupros do lado da minha casa. Existem estupros nos bastidores do mundo das celebridades. Existem estupros em países cuja pobreza não pode ser mensurada em valores. Existem estupros. Ponto final. Ignorar tal realidade seria criar um mundo paralelo, o que pode ser bom, mas claramente nem sempre é a proposta dos seriados que listei.


Sim, de fato, alguns desses programas poderiam abordar a coisa de outra maneira. Pegue Game of Thrones, por exemplo: Sansa Stark foi forçada a se casar com Ramsay Bolton e teve sua virgindade (conceito que, creio eu, ainda discutimos muito pouco, mas isso é papo pra outro dia) brutalmente arrancada em uma cena muito explícita, que nos fez odiar ainda mais Ramsay e, ao mesmo tempo, ter uma visão mais humanizada de Theon Greyjoy, enquanto este chorava ao observar sua irmã semi-adotiva naquela condição. A cena poderia ter sido explorada de outra forma. A situação toda, aliás, poderia ter sido abordada de outra maneira. Ainda assim, devemos manter em mente que os seriados que amamos muito raramente são escritos ou dirigidos por mulheres. Assim sendo, são controlados majoritariamente por homens e, sim: em muitas das vezes, os estupros ocorrem justamente para humanizar algum homem ou trazer à tona a discussão de que nem todos são monstros, muitos são somente homens pais de alguém, irmãos de outrem, filhos, sobrinhos, tios, professores e tantos outros papéis sociais e afetivos, o que obviamente não justifica nada, mas torna a discussão mais densa.


Enquanto em Game of Thrones, vimos uma cena gráfica e talvez muito explícita, em Scandal e House of Cards, a cena não ocorre em tempo real, mas é trazida de volta em algum flashback. Particularmente nestes dois seriados, lidamos com mulheres fortes, com uma vida completamente construída após o episódio que, só então, após muito tempo, percebemos que deu o tom de todos os dias seguintes. Mellie Grant, em Scandal, é a esposa do presidente dos Estados Unidos, e — para não dar maiores spoilers —, vive a vida num jogo de poder que envolve a ela, seus filhos e todos a seu redor. Em um dos raros momentos de fraqueza, aprendemos a verdade sobre ela e seu passado assombroso. Este cenário, aliás, não diverge da realidade de Claire Underwood, em House of Cards, que só nos apresenta seu estupro quando encontra com outra vítima do mesmo estuprador e, inclusive, utiliza-se do episódio para fins políticos. Mellie e Claire são vítimas, mas nos mostram que não são somente isso. É possível seguir em frente e tocar o barco, apesar dos tropeços e da enorme dor que carregam — e provavelmente sempre carregarão. É possível viver apesar de. Importante frisar que Mellie Grant foi criada por Shonda Rhimes, o que torna visível a mudança de perspectiva quando a história é escrita por uma mulher: as vítimas são sobreviventes e seguem em frente; não há foco no homem, há foco na persistência feminina e na capacidade de regeneração, o que humaniza ainda mais a mulher, dando-lhe espaço para sentir e viver nos maiores moldes da condição humana, não deixando-a eternamente na condição de vítima nem fazendo com que ela ignore completamente o episódio e siga como se nada tivesse acontecido — o que já vimos ocorrer, aliás, novamente em Game of Thrones, mas com Cersei Lannister.

Este cenário humanizador, que pinta a mulher traumatizada, mas que segue em frente, também é encontrado quando assistimos Jessica Jones. Aqui, novamente, a cena dos estupros (pois, sim, são vários) não são gráficas, nem por isso machucam menos. Não é necessário que vejamos Jessica sendo estuprada, uma vez que lidamos, em absolutamente todos os episódios, com as marcas que tais ocorridos geraram nela. Jessica é uma super-heroína humana demasiadamente humana, que passa a ficar com medo de tudo — e, ainda assim, é forçada por si mesma a esconder o medo que sente. Toda a construção da personagem se dá em cima do estupro e da violência psicológica, sim, mas lidamos com o que resta dela e como ela busca se reconstruir, apesar da enorme dificuldade evidente. 


Não posso falar de todos os seriados que citei, já que ainda não assisti a todos eles, mas o objetivo do post é provocar a discussão. Válido ressaltar, porém, que o contexto social de Game of Thrones é diverso, e seria injusto fingir que não, uma vez que cenas gráficas de estupro não são novidade em contextos antigos — pegue, por exemplo, o filme A Outra, de 2008, em que Ana Bolena (vivida por Natalie Portman) é estuprada pelo rei Henrique VIII (Eric Bana) e a gente vê tudo acontecer em detalhes que podem ser assustadores. Aliás, ainda neste filme, o estupro aparece como uma punição e, se não formos espertos, podemos nos pegar culpabilizando Ana Bolena e dando razão ao rei. Porque esse é, justamente, um dos efeitos colaterais da cultura do estupro: estamos, todos, tão submersos nela, que por vezes nós mesmos, que nos colocamos em pedestais desconstruídos, podemos nos ver na posição opressora, culpabilizadora, ignorando completamente a posição da vítima.

Em se tratando de cultura, por todos os lados vemos exemplos. Em todas as partes encontramos vítimas e agressores. Portanto, meu objetivo aqui é tão somente provocar uma discussão. Talvez seja hora de prestarmos mais atenção aos seriados que amamos, buscando observar de que maneira estes lidam com as vítimas e os agressores num episódio de estupro. A que serve tal estupro? A cena é válida ou poderia ser evitada? Este episódio tem alguma finalidade na construção dos personagens ou busca tão somente o aumento da audiência? Conhecemos estes personagens, a história por trás deles, ou são personagens sem rosto, sem enredo, cuja principal função é ser vítima ou agressor num estupro? Este episódio desconstrói a cultura do estupro ou coloca-a em jogo sem o mínimo de responsabilidade social? 

Sem cultura, não há povo. E, sem povo, não há cultura. Somos os principais responsáveis por mudar a cultura. Passemos, pois, a ter um olhar crítico e a, cada vez mais, falar sobre as coisas que estão erradas por aí, por aqui, em Game of Thrones ou Scandal. Em todos os lugares.


PARA SABER MAIS SOBRE O TEMA:

  • O silêncio que ecoa: a cultura do estupro no Brasil, post do Lugar de Mulher;
  • Como silenciamos o estupro, reportagem bem completa da Superinteressante, da qual, inclusive, retirei os dados do IPEA mencionados no texto;
  • Aqui está a carta comovente que a vítima de Stanford leu em voz alta para seu agressor, link com todos os avisos de gatilho ativados, por ser muito forte; ainda assim, é de uma leitura extremamente necessária;
  • A soberania patriarcal: o sistema de justiça criminal no tratamento da violência sexual contra a mulher, artigo da professora Vera Regina Pereira de Andrade, que oferece ensinamentos importantíssimos sobre como o sistema de justiça criminal não é o melhor meio de lidar com crimes de estupro;
Alguns links especificamente sobre o tema, que foram essenciais na escrita deste. Contudo, todos eles estão em inglês:

  • Rape on TV — more than just a plot twist;
  • 5 TV shows and movies that prove rape storylines don't always have to be terrible;
  • On Jessica Jones, rape doesn’t need to be seen to be devastating;
  • The truth about TV’s rape obsession: How we struggle with the broken myths of masculinity, on screen and off;
  • What ‘American Crime’ Can Teach A Show Like ‘Game Of Thrones’;
  • There’s a Reason There’s So Much Rape on Your Favorite TV Shows.

Ou: vamos falar de assédio persistente.

Muitos dos que acompanham o blog sabem sobre o tema do meu tcc, porque eu tenho muito orgulho desse filho e falo dele pra todo mundo. Para os que não sabem, no último sábado, pela manhã, eu estava descrevendo os resultados da pesquisa que fiz sobre stalking* (em português a tradução mais próxima seria assédio persistente) e, considerando o tamanho da minha amostra, o fato de ser uma universidade particular, podemos dizer que fiquei realmente assustada. E comentei pelo facebook o quanto nós precisamos falar sobre assédio persistente.

No fim do dia, a internet não falava de outra coisa que não o que ocorreu com Ana Hickmann.



É uma pena que, dada a atual situação política do país, um escândalo explodiu na segunda-feira (23/05) e hoje o caso que poderia ter tido uma repercussão extremamente positiva no que diz respeito ao debate sobre o assunto já não está mais circulando por aí. As pessoas, honestamente, já passaram para a próxima notícia. Porém, aqui vai a novidade: stalking não é “privilégio” de gente famosa. Acontece diariamente, com mulheres (e homens) anônimas, em todos os lugares, de todas as classes sociais.

Mas, o que é stalking? A pergunta é excelente, já a resposta é extremamente complicada. Os países nos quais o assédio persistente é tipificado no Código Penal, comumente o identificam por um padrão intencional de comportamentos indesejados que resultam na experiência de medo do alvo, ou comportamentos que uma pessoa “razoável” observaria como ameaçadores ou temerosos (Nyholm, 2010). Acredito que não haja dificuldade alguma em perceber onde está o problema de tal definição: o stalking é o único crime que exige que a vítima demonstre uma determinada resposta para que seja considerado crime. Quando uma mulher sofre violência doméstica, ninguém questiona se ela sentiu medo com o ocorrido para que seja iniciado um processo. Agora, estudos apontam que 1/4 das mulheres que passaram por uma experiência de assédio persistente não demonstraram medo, não se sentiram ameaçadas ou temerosas. Seria justo que a experiência dessas mulheres fosse desclassificada e que o sofrimento e o incômodo causados na vida das mesmas fossem considerados “menos importantes” por não terem respondido à situação da forma como foi pré-determinada que devessem responder?

As discussões em torno do tema são infinitas: qual seria a linha tênue entre o que é permitido, o que é “aceitável” e o que é invasivo? Nossa sociedade, constantemente, incentiva o assédio persistente. Os comportamentos excessivos são vistos como românticos, como atitudes de carinho e afeto. Podemos pensar em infinitas frases como “ele só está te ligando tanto porque ele gosta de você”, “ele foi atrás de você naquela festa e naquele café porque ele queria te ver!”, dentre muitas e muitas outras.

O caso de Ana Hickmann foi um caso de assédio persistente – e foi o caso de uma celebridade. O interesse pelo tema, academicamente e legalmente falando, surgiu devido aos casos frequentes de stalking a pessoas famosas; até o momento em que se percebeu que não ocorria somente com os que estavam na mídia. Para quem não acompanhou as notícias, em resumo, o que ocorreu, foi que um homem postava milhares de declarações através do instagram, utilizando de linguagem chula e expondo a apresentadora de forma perturbadora. No último sábado, ele invadiu o hotel no qual ela estava hospedada portando uma arma — e a história acabou com uma morte (do agressor) e um ferido (a cunhada de Ana Hickmann).

São infinitas as coisas que poderíamos tirar para discussão a partir desse caso, mas vamos falar sobre o que considero como sendo os pontos principais:

Em primeiro lugar, a mídia não sabe retratar um caso de violência contra a mulher. Isso é fato e não somente no que diz respeito ao assédio persistente. Se temos uma mídia que não sabe como falar a respeito de um caso de estupro, que acontece todos os dias, várias vezes ao dia de acordo com as estatísticas, quem dirá a respeito de um tema que não se estuda e não se fala sobre em nosso país. Os sites de jornais e revistas se referiram ao agressor como “fã”, a suas mensagens como “mensagens de amor e carinho”. Querida mídia: não é amor, não é carinho, não é fã. É stalking. E as consequências podem ser essas que presenciamos recentemente, dentre tantas outras.



Além disso, precisamos falar sobre a importância de darmos nomes às coisas. É importante chamarmos os casos de stalking exatamente daquilo que são: casos de stalking. Quando não damos “nomes aos bois”, nós não sabemos que aquilo acontece, nós não olhamos as estatísticas e consequentemente nada é feito a respeito. O caso da Ana Hickmann sendo apresentado como “fã apaixonado” não é relacionado ao caso da mulher que ninguém conhece e que foi noticiado em uma nota de rodapé lá no site do G1 como “mulher é morta por ex-parceiro que não aceitava o fim do relacionamento”, e muito menos é relacionado a tantos outros casos que ocorrem diariamente e que não possuem um “fim” digno de atenção midiática, mas que causa impactos sociais, psicológicos, financeiros e na rotina de quem é vítima.

O principal propósito desse texto é dar uma guinada na discussão. Nós precisamos falar sobre assédio persistente porque ele é silencioso, porque é uma violência coberta, aceita, incentivada. Nós precisamos falar sobre isso, contar nossas histórias, ouvir as histórias dos outros e discutir o que pode ser feito a respeito (e aqui não entro no mérito “tipificar o crime no código penal” porque eu sou completamente descrente quanto ao mesmo).

O assédio persistente faz mal sozinho, mas pode ser, também, o caminho para outras infinitas formas de violência.

E já passou da hora de darmos a devida atenção ao assunto.

* stalking: termo em inglês que, em tradução literal para o português, significa "perseguição"; porém, nos meios acadêmicos, discute-se que o termo mais adequado para tradução seria "assédio persistente".


SAIBA MAIS - algumas estatísticas:

  • Em um ano, 7.5 milhões de pessoas sofrem stalking nos Estados Unidos;
  • 1 a cada 4 mulheres e 1 a cada 13 homens irão ser vítimas de stalking em algum momento de sua vida; 
  • 21% das experiências ocorrem durante o relacionamento íntimo, 38% durante e depois o término do relacionamento e 43% depois que o relacionamento terminou;
  • Impactos: isolamento, hipervigilância, transtorno pós-traumático, pesadelos, pensamentos suicidas, culpa, auto-medicação com drogas ou álcool, raiva, vergonha, depressão, confusão, dentre outros;

Todas as informações a cima são referentes à estatísticas dos Estados Unidos. Como dito no texto, o Brasil está muito atrás em pesquisas e nós não estamos tratando o assunto com a seriedade que merece.

Referências: 

  1. Estatísticas (deixo o link do pdf, pois se trata de um guia de campanha muito interessante, porém inteiro em inglês): ttp://stalkingawarenessmonth.dreamhosters.com/sites/default/files/NSAM%202016%20Social%20Media%20Posts%20Final.pdf
  2. Quanto a definição legal utilizada no texto: Nyholm, H. H. (2010) Stalking. Em Brown, J. & Campbell, E. A. The Cambridge Handbook of Forensic Psychology. (pp. 562-570). New York: Cambridge University Press.
Domingo passado, fui ao cinema ver "Nise — O Coração da Loucura" (dirigido por Roberto Berliner), já ciente de que estava prestes a ver um filme e conhecer um pouco sobre uma mulher que me colocaria para pensar bastante. Baseado na experiência da psiquiatra Nise da Silveira (vivida por Glória Pires de forma excepcional), o filme retrata, basicamente, como o afeto e a atenção são meios muito mais eficazes para tratar dos "excluídos" do que qualquer tipo de violência, seja ela física, simbólica ou verbal. 

Desde que entrei na faculdade de Direito, desenvolvi enorme interesse sobre o tema Direitos Humanos e a cultura da não-violência como resposta ao caos social. No segundo período, estagiando em uma Vara Criminal de Vitória durante o dia e tendo aulas profundas de Sociologia e Filosofia pela noite, eu entendi que havia entrado num ramo que não mais me proporcionaria noites tranquilas de sono ou um humor constantemente alegre. Lidar com Direitos Humanos e cárcere não é fácil: a gente precisa desenvolver um escudo e uma armadura, mas, ao mesmo tempo, cuidando para que o coração permaneça frágil, acessível. Ainda assim, parece um chamado. Militar pela dignidade humana, por mais difícil que seja, nunca será em vão.

Nise da Silveira foi um exemplo disso. Revolucionária na psiquiatria nacional, não acreditava na violência como solução e, lutando num campo majoritariamente composto por homens, encarregada da renegada Terapia Ocupacional de um hospital psiquiátrico, introduz a arte àqueles que ela chama de "clientes" — e não mais "pacientes" — como forma de expressão da mente, por vezes confusa. Nise não acredita na violência, acredita na subjetividade: deixa que seus clientes façam o que quiserem; deixa que suas mentes se manifestem livremente; deixa que os ditos "loucos" convivam com a natureza, com os animais, como seres humanos agora dignos de contato e afeto. Mas, para além disso, a trajetória da Dra. Nise nos faz questionar quem é o louco e o são; quem é o desejável e o indesejável; por quem vale lutar e quem a sociedade prefere isolar — tirar de vista, isentar-se de responsabilidade: pois aquilo que eu não vejo, não me afeta, com aquilo que está fora do meu meio de convivência eu não sou obrigado a lidar.

"A sociedade tende a instalar uma clivagem entre o que considera normal e anormal. Assim estabelece uma clivagem muito profunda entre ela (a sociedade "sadia") e todos aqueles que, como os loucos, os delinquentes e as prostitutas, são desvios, são doenças, que se supõe nada têm a ver com a estrutura social. A sociedade se autodefende, não dos loucos, dos delinquentes e das prostitutas, mas de sua própria loucura, de sua própria delinquência, de sua própria prostituição, e dessa maneira aliena, desconhece e trata como se fossem alheias e não lhe correspondessem" 
(Bleger, 2007).

Em outras palavras, os manicômios e as prisões representam tudo aquilo com o qual não queremos entrar em contato e preferimos manter longe de nós - nos protege, enquanto sociedade, não do perigo causado por aquele que excluímos, mas do que eles representam a nós: a nossa própria loucura, a nossa própria delinquência.


"Nós estamos pretendendo a recuperação de homens considerados farrapos para uma vida socialmente útil e talvez mais rica que a vida anterior que eles levavam".
(Nise da Silveira)

Dia 18 de maio é celebrado como o Dia de Luta Antimanicomial, movimento criado para pôr fim a todos os tipos de encarceramento e hospitalização dos chamados "loucos", entendendo, como a Dra. Nise, que os métodos de verdadeira tortura e isolamento dessas pessoas não são o caminho para o tratamento de nenhum tipo de doença mental. Os hospitais psiquiátricos, por "melhores" que sejam, por mais "humanizados", ainda assim falham em cuidar do ser humano: ao isolar o indivíduo, ao excluí-lo, ao tratar todos os sujeitos com uma mesma rotina, com mesmos métodos de cuidado, utilizando-nos de estigmas, destruímos sua subjetividade, o que é característica fundamental das instituições totais, como descritas por Erving Goffman.

Para além disso, a luta antimanicomial também serve para questionar a própria função da pena de prisão no sistema penal — afinal, se prisão solucionasse o problema da violência, de fato, deveríamos ter índices de criminalidade bem menores, tendo em vista que o Brasil de hoje é o quarto país em que mais se prendem pessoas no mundo todo. É essencial pensar para além da cadeia, do isolamento social, da violência. E Nise da Silveira, ela mesma uma presa política por possuir livros marxistas, em sua história, ensina-nos isso.

Conheçamos Nise da Silveira. Conheçamos figuras femininas importantes de nossa história e saibamos que é possível ser mulher, ter voz, ter atitude e conseguir revolucionar qualquer área do saber que nos propusermos a conhecer. Que a história da Dra. Nise da Silveira nos sirva de ensinamento e inspiração. Mas, acima de tudo, que entendamos que poderíamos ser nós. Poderia ser nossa mãe, nossa irmã. Porque nada nos diferencia em nossa sede revolucionária enquanto mulheres.


(DICA: A cena final do trailer não vai sair da sua cabeça e vai te servir de inspiração pra vida).


PARA SABER MAIS SOBRE O TEMA:  

  • Entrevista escrita com a Dra. Nise da Silveira;
  • Quem foi Nise da Silveira, a mulher que revolucionou o tratamento da loucura no Brasil — matéria do Huffpost Brasil;
  • "A casa dos mortos" — documentário, no youtube, sobre a realidade dos chamados manicômios judiciários, para onde são levados criminosos considerados loucos e que não podem ser levados a prisões comuns;
  • "Bicho de sete cabeças" — filme brasileiro com Rodrigo Santoro como protagonista, narra a história verídica de Neto, internado em um hospital psiquiátrico após seu pai descobrir um cigarro de maconha em seu bolso;
  • "Holocausto Brasileiro: Vida, Genocídio e 60 Mil Mortes no Maior Hospício do Brasil" — livro jornalístico de Daniela Arbex;
  • "Manicômios, prisões e conventos" — livro de Erving Goffman;
  • "Vigiar e Punir" — livro de Michel Foucault;
João é um jovem branco, heterossexual, cis, de classe média; não é bonito nem feio, tem um emprego suportável e um ou dois amigos próximos, com quem joga videogames e sai para beber; João é fã de filmes clássicos, música alternativa e super-heróis de histórias em quadrinhos. A vida de João era estável e monótona, até que ele conheceu Maria. Maria também poderia ser considerada uma jovem “normal” – isto é: branca, cis, heterossexual, de classe média e, é claro, linda – mas não, ela não é como as outras! João certamente não se apaixonou por sua aparência de boneca, mas pelo fato de que, olha só! Ela gosta das mesmas coisas que ele! Quem iria dizer que uma moça tão linda quanto ela fosse ter uns gostos tão estranhos, não é mesmo? E ela adora comer! Mas, é claro, sem engordar um quilo sequer. Como ela consegue?

João pensou que nunca fosse possível as coisas funcionarem entre os dois, porque, apesar de tudo, ele era só um cara qualquer e Maria era uma menina empolgada e aventureira, praticamente seu oposto. Mas, como se fosse mágica, Maria se interessou pela rotina chata de João e por tentar fazer ele ver um lado mais bonito da vida, e assim se apaixonou por ele.

Agora me diga em quantos filmes, livros, séries, etc. você consegue enxergar essa história? Se fizer um pouco de esforço, até em Game of Thrones existe um pouco disso (Jon Snow e Ygritte, alguém?).

"Meu vestido é feito da mais pura seda de Tralalalaleeday!"

E em quantos desses casos o cara no final acaba sendo um babaca, caso a moça não corresponda seus sentimentos? Com certeza maioria desses personagens também são daquele tipo que acredita na mitológica “friendzone” – e não para de reclamar dela.

Quando eu era mais nova eu costumava adorar esse tipo de história – porque eu me identificava com os caras. Sim, mesmo sendo menina. Eu me identificava com eles, torcia por eles, tomava as dores deles, porque eu realmente entendia como era estar naquele lugar. Perdi a conta de quantas personagens femininas incríveis eu odiava quando mais nova por causa dessa identificação. Hoje percebo como esses caras são irritantes e que não existem mulheres desse jeito idealizado que eles tanto correm atrás, e mesmo que elas existissem eles não mereceriam elas. Mas algo dentro de mim ainda sente as dores deles.

Esses dias me peguei me identificando até com – vejam só – o Rei Gelado, de Hora de Aventura. Para quem não sabe, o Rei Gelado é a versão de desenho animado daquele “cara legal”, aquele que não sabe aceitar um não e que reclama da friendzone. E então eu me assustei comigo mesma, com certeza tem algo de errado aí. Será que eu sou tão perseguidora e abusiva assim, ou só me sinto assim por ser uma mulher em uma situação que, normalmente, é vivida por um homem? “Que situação? ” Você pergunta. Então senta que lá vem história.

Eu me apaixonei recentemente, e foi tudo como num filme. Eu vi ele na festa de uma amiga, e me proibi sair de lá antes de conversar com ele. Depois de muita luta, eu acabei puxando assunto, algo totalmente aleatório, como o fato do bolo ser de coco e não de chocolate. Como já era final da festa, conversamos muito pouco, mas ele me adicionou no Facebook – o que fez meu coração acelerar. Por semanas eu ficava encarando aquela bolinha verde na frente do nome dele no chat criando coragem para, de novo, puxar algum assunto. Até que um dia, depois dele já ter curtido e comentado alguns posts meus, eu novamente falei com ele. E nós literalmente conversamos durante dia inteiro. E no dia depois. E no dia depois.

Depois de umas duas semanas já dava pra perceber que ele tinha criado um certo laço comigo, pegou intimidade e confiança rápido e certamente já me considerava amiga. Mas eu, com a visão obliterada por um coração desesperado, ainda não tinha certeza se ele gostava de mim como “algo mais” ou não -  mesmo ele nunca tendo dado sinais de que sim. Até que eu não aguentei mais tanta dúvida e tanta expectativa e resolvi falar para ele o que eu sentia, de maneira mais fria possível pra não assustá-lo. Ele disse que já tinha notado isso havia um tempo, e depois disse a seguinte frase “Eu sei que é clichê, mas o problema não é você, o problema sou eu. Eu já gosto de outra pessoa.” E sabe o que eu falei depois? Eu pedi desculpas. E até ele mesmo achou que não tinha nada a ver eu fazer isso, afinal, eu não posso controlar essas coisas. Eu já tinha avisado que não queria que isso mudasse nossa amizade, então disse que pedi desculpas porque eu notei que talvez eu mesma poderia mudar de atitude com ele, o que deixou ele triste, afinal, ele gosta muito de mim como amiga. E então eu chorei por algumas noites seguidas e logo depois passou – aliás, minutos depois da “declaração” a gente já estava conversando como se nada tivesse acontecido. E continuamos assim por algum tempo, até eu decidir cortar relações, porque não aguentava mais ser a raposa da fábula de Esopo, "A raposa e as uvas". No final, de novo caí no estereotipo do nice guy.

"Eu só quero ser amado!"

É aí que me vêm as dúvidas: e se fosse ao contrário, se tivesse sido ele quem ficou perdidamente apaixonado por mim, procurando em todas as minhas mensagens um sinal nas entrelinhas dizendo que sim, eu gostava dele do mesmo jeito? Ele seria um fofo, um pobre coitado, não é mesmo? Coitadinho, foi iludido por aquela vadia sem sentimentos! Mas pelo menos ele ganhou uma lição de vida, não é?

E eu? Ah, sou apenas mais uma boba iludida. Que idiota, não é mesmo? De pensar que, algum dia, ele fosse gostar de mim. 
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